Reportagens
Delegado 'antissistema' usa estrutura da Polícia Civil para engajar nas redes sociais
Pré-candidato ao Senado por Goiás, Humberto Teófilo organiza até visita de crianças à celas; especialista aponta instrumentalização do cargo e do patrimônio público
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"Quando vocês pensarem em fazer alguma coisa errada, vocês lembrem desse ambiente. Tá cheiroso aí?", pergunta o delegado Humberto Teófilo de Menezes Neto a um grupo de crianças e adolescentes que ele conduziu para conhecer as celas em péssimo estado da delegacia que funciona como Central de Flagrantes de Aparecida de Goiânia, em Goiás.
O vídeo, publicado no perfil pessoal do delegado em 31.jan.2026, soma mais de 696 mil curtidas no Instagram e divide comentários a favor e contra a iniciativa que, pelas postagens analisadas pelo Núcleo, ocorre desde mai.2025.
As crianças aparecem entrando nas celas vazias, sem camas, com paredes pichadas, algumas chegam a cobrir o nariz com a camiseta quando conhecem o "boi", como é chamado o vaso sanitário coletivo no chão, e observam cobertas maltrapilhas. Em nenhum momento ele menciona que a Lei de Execução Penal garante que a pessoa privada de liberdade tem direito à alimentação e à instalações higiênicas.
É ✷ importante ✷ porque...
- Integrantes de forças da segurança pública têm usado usado o cargo e a atuação na polícia para engajamento em redes sociais sem a devida fiscalização;
- Portaria da Polícia Civil de Goiás proíbe exposição de ocorrências, armas, viaturas e suspeitos detidos para fins pessoais ou eleitorais;
- Legislação eleitoral ainda não dá conta de fenômeno de policiais influencers e exploração de plataformas digitais para fins políticos gera risco à democracia, segundo diretora do Instituto Sou da Paz;
- TSE vai aprovar resoluções que orientam eleições gerais até mar.2026 e trecho sobre impulsionamento de conteúdo acende alerta sobre tática da "indústria de cortes".
Além de receberem lições de moral e ouvirem que aquele espaço é ocupado por faccionados do PCC e do Comando Vermelho, o público infantojuvenil é registrado em outros vídeos postados na rede social fazendo oração a Deus e recebendo um certificado.
O delegado chama essa visita de "Operação Geração do Bem" e diz no Instagram que é um programa em que ele faz "um choque de realidade" para afastar jovens das drogas, apesar de essa não ser uma política encabeçada pela Secretaria de Segurança Pública do estado pois não ocorre em outras delegacias. Ele disponibiliza um formulário hospedado num site pessoal em que qualquer pessoa pode se inscrever respondendo qualquer informação nos campos de nomes de pai, mãe, criança, endereço, e-mail e telefone.
A inscrição não passa por uma avaliação prévia e direciona os interessados a um grupo fechado no WhatsApp onde Teófilo posta sobre as visitas. A reportagem fez uma inscrição se passando por mãe de uma criança fictícia e conseguiu entrar no grupo sem dificuldade. Apesar de ele ter informado em vídeo que as visitas são para crianças a partir de nove anos, no grupo afirmou que é partir de sete e que, ao chegarem ao local, os responsáveis assinam um termo. O grupo continha cerca de 70 membros e, no site, o delegado não informa como esses dados serão utilizados.
A reportagem acompanhou o perfil do delegado durante todo o final de semana e, no domingo, para a visita agendada às 9h, Teófilo postou um story com o trecho de um documento de uma "ordem superior" que dizia que a visita das crianças às celas estava proibida, coincidentemente depois de o Núcleo ter feito questionamentos à assessoria da Polícia Civil.
A "atividade" então, ocorreu fora da Central de Flagrantes, com uma caminhada que fechava as ruas, com uma viatura da Polícia Civil abrindo caminho acompanhada de outra da Ronda Ostensiva Municipal (ROMU) da guarda municipal.

Com um microfone e uma caixa de som na mão, o delegado fez três paradas para dizer aos jovens não usar drogas, respeitar os pais, tomar cuidado com pedófilos e, ao final, numa quadra da Praça da Juventude, houve uma apresentação de um grupo de dança evangelista e uma oração coletiva conduzida pela sua esposa, a pastora Roberta Teófilo de Menezes Monzini, que já ocupou cargo comissionado na Assembleia Legislativa de Goiás, entre 2023 e 2025, e foi diretora no Departamento de Política para Mulheres por um ano e cinco meses na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Não foi necessário ir até Aparecida de Goiânia para ver tudo isso, pois esse foi parte do conteúdo de nove publicações no feed do delegado nas últimas 24 horas, durante o seu plantão, além de ocorrências do dia. Ele também enviou no grupo de WhatsApp um vídeo gravando as celas na delegacia para que os pais que fizeram a visita no dia mostrassem aos filhos.
Para se ter uma ideia, esse tipo de abordagem não é realizada nem pelo Programa Educacional de Resistência às Drogas (PROERD), disseminado em todas as polícias militares do país e que ocorre desde 1998 em Goiás. Ainda que haja questionamentos sobre efetividade, a iniciativa tem supervisão do Estado, com seleção de policiais, curso de aperfeiçoamento dos instrutores, currículo adaptado por faixa etária e acontece dentro das escolas.
Além de expor crianças e adolescentes, Teófilo publica vídeos com alguns pais e responsáveis legais que aprovam a iniciativa. Todos os dias há registros no Instagram, onde acumula 797 mil seguidores até a publicação deste texto, sobre ocorrências policiais, prisões de suspeitos, exibição de drogas e armamentos acompanhados de bordão recorrente enquanto segura uma caneta: "flagrante neles". Ele também se filma entregando bíblia a detidos.
No dia 21.jan, Teófilo publicou três reels em que afirma ter usado os dias de folga para participar da caminhada liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) contra a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e por anistia aos condenados pelos crimes do 8 de janeiro de 2023. Ele se coloca com um delegado "antissistema", apesar de ter recebido notoriedade pela carreira no funcionalismo público, já que está nos quadros da Polícia Civil de Goiás desde 2010.
Na ativa e recebendo mais de R$ 35,5 mil por mês, Humberto Teófilo é pré-candidato ao Senado, algo que faz questão de destacar na sua foto do perfil, na descrição da bio e em uma postagem fixada no feed. As postagens exibindo tudo na delegacia, além das suas posições políticas acompanhadas de pregações, têm tomado força após o anúncio, feito em dez.2025, da terceira candidatura dessa vez pelo Partido Novo. Uma delas, inclusive, pede expressamente o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF, a partir de uma imagem editada por inteligência artificial sem sinalização.

Ele já foi deputado estadual (2019-2023) e tentou concorrer à Prefeitura, em 2024, mas não se elegeu.
No ano passado, a seção de Goiás da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) repudiou a atuação do delegado e condenou a exposição nas redes sociais sobre detenção de dois advogados, cujo flagrante acabou sendo anulado na justiça e o inquérito arquivado.
Na avaliação da diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, as postagens feitas pelo delegado nas redes sociais violam a Portaria nº 547/2021, que normatiza a comunicação institucional da Polícia Civil de Goiás, após analisar as publicações enviadas pela reportagem.
"É um canal pessoal em que ele usa esse capital simbólico de ser policial para fazer postagens. Há um conflito de interesse porque ele está usando a estrutura e o trabalho público da Polícia Civil de Goiás em benefício próprio", analisa. "Ele apoia abertamente candidatos e ex-candidatos e tem uma posição política muito forte que também pode confundir as pessoas porque talvez elas achem que é uma posição da Polícia Civil de Goiás, sendo que a Polícia Civil não pode ter uma posição a favor do Bolsonaro, do Lula, do Papa nem de ninguém".
O texto proíbe que os servidores exibam em plataformas digitais logos, viaturas, armas e equipamentos da corporação para "notório interesse eleitoral ou econômico, sob pena de responsabilidade administrativa". Os policiais também não podem publicar informações sobre ocorrências que não tenham sido divulgadas pelos canais oficiais da Polícia Civil – o que o delegado desobedece com frequência.
A norma não prevê uma punição expressa e indica que a conduta está passível de abertura de procedimento administrativo disciplinar. Para Ricardo, esse é um "vácuo" do texto pois não explicita como a fiscalização é realizada, o que pode esvaziar a efetividade das regras. O instituto deve divulgar, ainda neste semestre, um levantamento inédito sobre normas de uso de redes sociais nas polícias brasileiras.
Além disso, a atuação desse delegado exemplifica um fenômeno que vem se ampliando, o de policiais influencers. Eles exploram os cargos nas forças policiais nas redes sociais, muitas vezes com exibição de conteúdos de violência e de ódio que geram engajamento, algo que as plataformas digitais também se beneficiam, pois parte deles monetiza conteúdo. Em 2022, houve um aumento de 30% de profissionais da segurança pública eleitos na Câmara dos Deputados que dispunham de uma trajetória como influenciadores, por exemplo.
A legislação eleitoral proíbe que funcionários públicos utilizem de sua função e do patrimônio do Estado para se elegerem, mas Carolina Ricardo alerta que a lei e as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda não dão conta do período anterior à corrida eleitoral, já que policiais devem se afastar do cargo no mínimo três meses antes da campanha e os que atuam como influencers costumam construir sua imagem nas redes sociais muito antes do pleito.
"As polícias não podem ser usadas politicamente a serviço e de forma parcial de nenhuma liderança política. É um risco muito grave para a democracia, a exemplo do que a gente viu na gestão Bolsonaro com a Polícia Rodoviária Federal fazendo bloqueios nas eleições [para impedir voto] e de perseguições políticas", explica. "Dito isso, nas eleições isso [a politização das polícias] se complica mais. A popularidade que as polícias têm, principalmente as militares, que são um exército mesmo, se elas estão ali fazendo campanha para um determinado candidato, cedendo seus espaços para fazer campanha, estão violando a regra básica da eleição, que é a igualdade de concorrência entre os candidatos. Elas estão usando o poder público, gerando conflito de interesse, e, no limite, colocando em xeque a lisura das eleições".
Além disso, os que se candidatam e não se elegem têm a possibilidade de retornar ao serviço na polícia sem restrição, como é o caso do delegado Humberto Teófilo. "A gente precisa de instituições policiais profissionais, sérias, fortes e respeitadas, por isso é preciso protegê-las dessa instrumentalização da imagem das polícias", ressalta a diretora do Instituto Sou da Paz.
Na semana passada, o TSE concluiu a fase de audiências públicas sobre as normas que vão orientar as eleições deste ano. As resoluções devem ser votadas e aprovadas até 5.mar.2026.
A proposta feita pelo ministro Nunes Marques, que é vice-presidente do tribunal, tem gerado debates, já que há trecho que permite o impulsionamento de conteúdo crítico ao governo na pré-campanha, desde que não promova candidatos, algo que abre brecha à tática conhecida como "indústria dos cortes", feita pelo coach Pablo Marçal durante a campanha para a Prefeitura de São Paulo, em 2024.
Ele foi condenado à inelegibilidade no ano passado após o TSE considerar que houve abuso dos meios de comunicação devido à promoção de um concurso que oferecia pagamentos para criadores de conteúdo que produzissem cortes de vídeos monetizados para redes sociais.
Nas eleições de 2024, o TSE proibiu o uso de deepfakes e determinou que conteúdos gerados por inteligência artificial trouxessem aviso explícito ao eleitor. Agora, o Ministério Público Eleitoral solicitou o endurecimento dessas regras e o governo federal pede que não seja permitida recomendação de candidatos em sistemas automatizados, como o ChatGPT.
Em consulta à Biblioteca de Anúncios da Meta, o Núcleo não localizou conteúdos patrocinados pelo delegado Humberto Teófilo após 2022. A reportagem tentou contato direto para questioná-lo sobre o uso das redes sociais e a visita de crianças às celas da Central de Flagrantes de Aparecida de Goiânia, mas não teve retorno.
O Núcleo também procurou a assessoria da Polícia Civil sobre a atuação do delegado, se havia conhecimento e autorização dessas visitas a celas e a fiscalização da portaria sobre uso de redes sociais. Até a publicação, não houve resposta.
Já a assessoria do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Goiás disse que "não emite juízo ou interpretação sobre eventual infração eleitoral em casos concretos".
O Ministério Público de Goiás disse que recebeu duas denúncias "relatando possíveis atuações do delegado que contrariam os princípios da administração pública", mas não informou se ambas têm relação com o cenário descrito pelo Núcleo. A assessoria informou que encaminhou ofício à Corregedoria da Polícia Civil "para apuração de possível prática do crime de abuso de autoridade".
Reportagem Jeniffer Mendonça
Arte Rodolfo Almeida
Edição Alexandre Orrico
⚠️ Texto atualizado às 12h36 de 23.fev.2026 para incluir resposta do MPGO.
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