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Rodrigo Ghedin Rodrigo Ghedin
Posts.cv, a última rede social “good vibes”
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Raio-X é uma editoria de análise opinativa sobre tecnologia e internet.

Tenho a teoria de que o destino de toda rede social é se afundar em tretas. O que não deveria ser surpresa quando juntamos milhões de pessoas no mesmo ambiente e as estimulamos a opinarem sobre tudo

O Posts.cv é a exceção que confirma a regra. Despretensiosa, com foco em design, arte digital e carreira e uma curadoria humana, os posts mais polêmicos que vi nos meses em que frequento o local são de gente frustrada com empresas que não retornam entrevistas de emprego. Mesmo esses são raros e o tom deles, ameno.

À primeira vista, parece um clone do finado Twitter, da disposição dos botões aos recursos. Coisas como menções, curtidas e DMs, o que se espera desses ambientes, estão todas lá. Convenhamos, é difícil fugir da rolagem infinita, ainda que no Posts.cv, talvez pelo baixo número de usuários, chegar ao final dos posts não lidos não é tarefa difícil — a menos que você se perca admirando os trabalhos e fotos alheios.

A semelhança para no visual, porém. A aba “Highlights” (destaques), que reúne o melhor da rede, exibe projetos e testes de interfaces digitais, experimentações artísticas, falam muito de Figma e outras ferramentas gráficas e — não podiam faltar — fotos de comida e de lugares bonitos.

O Posts.cv é uma espécie de produto derivado do Read.cv, “uma maneira super simples de criar um currículo digital” lançada em 2020, disse-me Andy Chung, um dos três fundadores da plataforma, em uma conversa por e-mail.

Andy vive em Berkeley, na Califórnia, e tem bagagem no design, mas desde a fundação do Read.cv divide seu tempo entre produto, engenharia e design.

Print do feed do Posts.cv numa janela do Safari do macOS.
Imagem: Rodrigo Ghedin/Núcleo.

A comparação inevitável, com o LinkedIn, vai além da ideia do “currículo digital” — embora eu goste de pensar no Read.cv como sendo uma versão menos tosca do LinkedIn.

Uma das fontes de receita da empresa de Andy é uma espécie de classificados de empregos, que empresas pagam para anunciar em um quadro na web e na newsletter semanal.

O Read.cv também gera receita com assinaturas pagas (a partir de US$ 6/mês) e patrocínios da newsletter.

O ~conglomerado virou, nas palavras do co-fundador, “uma comunidade de design onde você encontra inspiração, oportunidades de emprego, contrata colaboradores ou compartilha e colhe feedback do seu trabalho em andamento”.

Curioso com a motivação para arriscar a criação de uma rede social a essa altura, perguntei se a do Posts.cv teve algo a ver com a aquisição do Twitter por Elon Musk, no final de 2022. Sem surpresa, teve:

“Na verdade, durante muito tempo não quisemos nos tornar uma plataforma social porque sentíamos que essa necessidade já era atendida pelo Twitter. Quando Elon assumiu, sentimos que havia uma oportunidade de conquistar parte da galera do design e da tecnologia, já que já éramos um provedor de identidade profissional.”

O formato, que se reconhece é lugar comum, agrada a Andy: “O ‘microblogging’ dos primórdios sempre pareceu algo análogo ao ambiente de trabalho, no sentido de que as conversas podem gravitar de forma natural entre assuntos da indústria e brincadeiras. Isso ajuda você a conhecer pessoas profissional e pessoalmente, o que se alinha à nossa missão.”

Três pessoas trabalhando em computadores, em um cômodo iluminado pelo Sol.
Os três fundadores do Read.cv. Foto: Divulgação.

Não é preciso pagar para usufruir da plataforma. Há algumas vantagens vinculadas à assinatura, mas a experiência — tanto no Read.cv quanto no Posts.cv — é bem agradável de qualquer forma.

Nah, mais que isso: não é preciso nem se cadastrar para apreciar o que os frequentadores do Posts.cv expõem. Fiquei um bom tempo visitando a aba Highlights deslogado e sem conta antes de criar coragem de botar o meu inglês ruim para jogo — é o idioma oficial por lá.

Perguntei ao Andy qual o segredo para manter a atmosfera amigável da plataforma.

“Tivemos a sorte do nosso produto ter ressoado com uma comunidade tão positiva e talentosa”, respondeu ele. “Acredito que uma parte disso é que confiamos muito na curadoria para ditar o tom da plataforma, tanto no Read.cv quanto no Posts.cv. Isso nos permitiu celebrar o melhor conteúdo da plataforma de uma maneira que parece mais autêntica do que abordagens mais algorítmicas.”

As curadorias da aba Highlights e da página “Explorar” do Read.cv são feitas à mão pelos três fundadores — além de Andy, Mehdi Mulani, baseado em Los Angeles, e Shen, de Vancouver, Canadá. Por agora, Shen tem feito a maior parte desse trabalho.

Andy não revela números, diz apenas que ele e seus sócios querem crescer — “é vital para a saúde do nosso negócio”. Ele acredita que é possível crescer e, ao mesmo tempo, cultivar a atmosfera positiva tão presente lá hoje, “desde que a motivação das pessoas para estarem ali permaneça genuína e não transacional”.

Reportagem Rodrigo Ghedin
Arte Rodolfo Almeida
Edição Alexandre Orrico

Outros Jogos Rápidos

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    O meme da prateleira vale pra IA

    Análise do The New York Times, nesta quarta-feira (22.jul.2025):

    Os principais índices de ações têm acumulado recorde atrás de recorde nos últimos anos, impulsionados pelo apetite aparentemente sem limites dos investidores por tudo o que esteja conectado à inteligência artificial. O valor total do mercado de ações dos EUA mais que dobrou na última década, ultrapassando os US$ 75 trilhões — cerca de duas vezes e meia a produção anual de toda a economia americana, o que representa, por si só, uma proporção recorde.

    A dependência do crescimento econômico em apenas um setor econômico da maior economia do mundo me lembra aquele meme da prateleira:

    Via The New York Times (link gratuito)

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    OnlyFans ignorou fiscalização brasileira

    Ao menos três empresas de conteúdo digital pornográfico fiscalizadas pela Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), incluindo a OnlyFans, ignoraram comunicações feitas pelo órgão regulador, que abriu um processo de fiscalização para saber se os sites estão aderindo às restrições de uso de crianças e adolescentes.

    Em publicação no Diário Oficial da União desta quinta-feira (22.jul), a ANPD intimou as empresas por trás dos sites adultos AnimesHentai.biz, OnlyFans.com e ThisVid.com a responderem em 10 dias, após não conseguir contato – elas não possuem endereço no Brasil nem responderam a solicitações por via eletrônica.

    As empresas terão 10 dias para responder à intimação da ANPD. Não há mais detalhes sobre o processo, cujos documentos são sigilosos até agora.

    A ANPD anunciou em jun.2026 ter aberto um processo de fiscalização sobre 18 sites, que representam 98% do tráfego de pornografia online no Brasil, verificando adesão ao ECA Digital, legislação que passou a valer este ano e que trouxe mais proteções a crianças e adolescentes.

  • Alexandre Orrico Alexandre Orrico
    Jack Dorsey lança mais um app

    Você piscou e o Jack Dorsey lançou mais uma coisa. O cofundador e ex-CEO do Twitter anunciou nesta terça, 22.jul, o Buzz, um app que parece ser uma mistura de Slack com GitHub e que tem suporte para agentes de inteligência artificial.

    O Buzz entra na lista do apps que Dorsey criou e/ou financiou nos últimos anos, como Square, Cash App, Afterpay, TIDAL, Bluesky, Bitkey e Proto, além, do próprio Twitter/X.

    Via Techcrunch

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    França segue passos da Austrália

    Em uma medida inédita na Europa, a França se tornou o primeiro país do continente a aprovar regulação para restringir o uso de redes sociais por crianças e adolescentes menores de 15 anos.

    A Austrália foi o primeiro a ter trais restrições (nesse caso, para menores de 16 anos), com lei que entrou em vigor em dez.2025.

    Aparentemente, mais países europeus devem seguir o exemplo, como Noruega, Espanha e Dinamarca. Em muitos deles há algumas regras já, mas nada que seja tão restritivo quanto na França.

    No Brasil, o mais perto disso que temos é o chamado ECA Digital, que passou a valor a partir de mar.2026 e que prevê mais segurança para menores, incluindo moderação de conteúdo mais eficiente, ferramentas de supervisão parental, contas de menores de 16 ligadas a responsáveis legais e proteções contra publicidade direcionada, entre outras coisas.

    Segundo a Rádio França Internacional:

    O órgão de vigilância da saúde pública da França afirmou no ano passado que plataformas como TikTok, Snapchat e Instagram eram prejudiciais aos adolescentes, particularmente às meninas, embora tenha ressaltado que elas não eram o único motivo para o declínio de sua saúde mental.

    Via Rádio França Internacional, Ministério da Justiça e g1

  • Alexandre Orrico Alexandre Orrico
    Saldão da divisão Xbox?

    A Microsoft pode estar preparando o terreno para vender a divisão do Xbox. Segundo texto do MeioBit:

    De um lado, a Sony tomou a antipática, porém inevitável, decisão de encerrar a produção de mídias físicas dos consoles PlayStation para games lançados a partir de janeiro de 2028; do outro lado do rio, a Microsoft esviscerou a divisão Xbox ao demitir 1.600 funcionários (e mais 1.600 vão rodar até o fim do ano fiscal), vender e desmembrar estúdios, cancelar games e exterminar projetos e equipes inteiras.

    Obsidian, id Software, Activision, Blizzard e Bethesda foram alguns dos estúdios atingidos. Parece que Satya Nadella, diretor executivo da Microsoft desde 2014 e nomeado pelo próprio por Bill Gates, não tem mais interesse por videogames e quer deslocar os investimentos para... Inteligência artificial, claro.  

    Há um entendimento de que a real intenção do CEO Satya Nadella que, fato conhecido, está absolutamente obcecado com IA, não é tornar o Xbox lucrativo, mas se livrar dele.

    Um dos candidatos mais fortes para a compra é o Fundo Público de Investimentos (PIF) do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, que controla a SNK e está em vias de concluir a compra da Electronic Arts.

    Via MeioBit.

  • Alexandre Orrico Alexandre Orrico
    Jornalismo independente contra bets

    Ainda sobre as bets: nesta terça-feira (21.jul), 15 veículos independentes se uniram em torno de um compromisso de rejeitar anúncios de casas de apostas e repudiar a influência nefasta dessas empresas.

    Veículos que fazem parte da aliança

    • Agência Lupa
    • Agência Pública
    • Alma Preta
    • Amado Mundo
    • Aos Fatos
    • Manual do Usuário
    • Matinal
    • Meio
    • Mobile Time
    • My News
    • Notícia Preta
    • NeoFeed
    • Plural
    • Portal Imprensa
    • Reset

    Os efeitos negativos desse tipo de negócio já são bem conhecidos: comprometem a renda das famílias e atingem de forma desproporcional as classes sociais mais pobres, além do risco de dependência. São danos sociais e econômicos que já assustam até mesmo os bancos.

    O Núcleo também não aceita publicidade de casas de aposta. Há nove meses nós publicamos um texto editorial sobre essa decisão.

    (Curiosidade: alguns desses veículos estão sob o guarda-chuva de empresas maiores que aceitam e/ou aceitaram publicidade de bets, como UOL e Terra)

    Por que o Núcleo não aceita publicidade de bets
    Esclarecimento sobre nossa política de anúncios para nossa comunidade

    Via Meio & Mensagem, Neofeed, Mobile Time, Agência Lupa

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    O caso bizarro do engenheiro da Meta preso em Nova York

    Reportagem do New York Post (é um tabloide, meio sensacionalista, então cuidado é necessário):

    Um engenheiro de Nova York, que dizia criar "experiências digitais para crianças" na gigante das redes sociais Meta, foi preso após admitir ter tentado enviar mensagens de teor sexual para uma jovem de 13 anos [...]

    Felker, que listava seu cargo em uma conta do LinkedIn (agora excluída) como Gerente de Engenharia que criava "experiências digitais para crianças" para a Meta, entrou em contato com a "conta isca" de 13 anos do grupo [Predator Poachers Long Island], em maio, e vinha trocando mensagens com eles regularmente desde então, informou o grupo.

    A Meta disse que o engenheiro foi suspenso e que vai colaborar com as investigações.

    Via New York Post

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    Bets temem mais regulação no Brasil

    O repórter Pedro S. Teixeira (cara bom), da Folha, fez uma boa reportagem sobre o aumento, no Brasil, de 300% no número de apostas durante a Copa do Mundo.

    Mas o que me chamou atenção mesmo na reportagem foi que as empresas de apostas continuam receosas com potenciais novas regulações sobre publicidade do setor, além das que já foram implementadas recentemente – as bets gastaram mais de R$1,4 bilhão em mídia só em 2025.

    Outro ponto de preocupação para o setor foi a reação do governo Lula, além de estados e municípios, contra a publicidade de jogos de azar durante a Copa.

    O presidente da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias), Plínio Lemos Jorge, disse que algum nível de restrição era esperado às vésperas das eleições, mas o setor teme que os anúncios recentes sejam "o início de uma onda de retaliações, que desconsidera os efeitos negativos das restrições".

    Agora em julho, foram publicadas novas regras para anúncios, que restringem, inclusive, o incentivo de bets como uma forma fácil de ganhar dinheiro e a obrigatoriedade de trazer rótulos no estilo Ministério da Fazenda adverte: apostar pode causar dependência.

    Antes tarde do que mais tarde.

    Via Folha de S.Paulo, Agência Brasil, Poder360 e Meio de Mensagem

  • Alexandre Orrico Alexandre Orrico
    Contra a youtubização do Spotify

    Há alguns anos, o Spotify decidiu que concorreria com o YouTube. Podcasts foram incentivados a ganhar versões em vídeo, enquanto músicas passaram a exibir trechos de clipes que, na maioria dos casos, eram reproduzidos automaticamente em segundo plano. Na última sexta-feira (17), reforçando essa estratégia, o BTS lançou o clipe de “NORMAL” com exclusividade de 48 horas no Spotify.

    Esse direcionamento tornou o aplicativo mais confuso e difícil de usar, além de aumentar brutalmente o consumo de bateria e memória dos dispositivos.

    Recentemente, porém, descobri que o Spotify passou a permitir que os usuários desativem por completo vídeos, canvas (os vídeos curtos em loop) e outros recursos visuais.

    Nos links abaixo, há instruções para quem, assim como eu, quer deixar o Spotify com menos cara de árvore de Natal.

    Via WIRED e Tecnoblog

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    "Não é A, é B" – o vício de linguagem dos chatbots

    Artigo interessante na The Atlantic sobre um vício de linguagem avassaladoramente comum em chatbots que têm denunciado implicitamente quem delega pensamento para inteligência artificial:

    "Não é X; é Y". Uma vez que você começa a notar essa construção, você a vê por toda parte. Em uma versão, o Y é aditivo: ele foca, intensifica ou expande o X. Um relatório anual do Citizens Financial Group informou que o crescimento em sua divisão de private banking "não foi apenas uma vitória para o private bank — é uma vitória para toda a empresa". Em outra variante, o Y substitui o X como o descritor preferido... Há também construções como "Sem A, sem B, apenas C", que parecem surgir especialmente em ficção gerada por IA.

    Esse tique nervoso da IA pode acusar pessoas injustamente. Esse tipo de formulação é recorrente, comum, embora agora o exagero seja evidente, especialmente no LinkedIn. Na minha opinião, esses vícios vão forçar algumas pessoas a escrever diferente, a fim de se distanciar da verborragia sintética dos chatbots.

    Eu, por exemplo, sempre usei travessão para escrever, tanto em português quanto em inglês. Confesso que no último ano fui bem mais intencional e limitado com esse uso, justamente para evitar dúvidas de que é um modelo de linguagem escrevendo por mim.

    Via The Atlantic (gift link)

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