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Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
O jornalismo está ficando pra trás na corrida de IA
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Este artigo foi originalmente escrito a convite do Center for News, Technology and Innovation (CNTI), e publicado aqui em inglês.

Deixando de lado todo o hype e o alarmismo, é fácil ver um espaço para a inteligência artificial no jornalismo — o problema é que o que, quando e como ainda não foram completamente revelados.

Uma pesquisa recente com mais de 3.000 jornalistas de vários países mostrou que apenas cerca de 5% estão usando ferramentas de IA generativa (Gemini, ChatGPT, Claude, LLaMa e outros) regularmente, enquanto 28% as utilizam em alguma capacidade. Esse número é impressionantemente baixo, dado a escala do que essas ferramentas podem fazer para ajudar.

Isso nos diz que os jornalistas ainda não encontraram uma rotina diária para esse tipo de recurso, ou simplesmente não os acham úteis o suficiente no momento para seus próprios propósitos. Afinal, dá muito trabalho, muita tentativa e erro para eventualmente encontrar o equilíbrio certo para incluir novas ferramentas em uma rotina.

Mas o problema principal não é que os jornalistas individualmente não estejam vendo novas ferramentas de IA como algo valioso – a maioria dos jornalistas vê –, mas sim que organizações estão demorando muito, como um grupo, para concatenar os elementos que farão deste recurso uma parte intrínseca das redações como um todo — revisão de texto, resumo automático, classificação de dados, visualização de dados e muitas outras coisas. (Observe que eu não disse “criação de conteúdo”).

Há muitos projetos e experimentos, claro, mas poucos produtos realmente centrados no jornalismo. Organizações jornalísticas estão, neste momento, aderindo a políticas e projetos de grandes empresas de tecnologia, enquanto tentam navegar pela paisagem sem atritos desnecessários (bem, talvez não o New York Times), conhecendo o campo e as regras.

Ao mesmo tempo, muitos setores diferentes têm investido dinheiro em soluções alimentadas por IA, deixando as organizações de mídia como compradoras de tecnologias baseadas em assinatura que, de certa forma, ajudaram a criar (fornecendo dados de treinamento de alta qualidade para os novos modelos de linguagem).

Toda essa dinâmica coloca os jornalistas em uma posição muito sensível: à medida que as empresas começam a implementar produtos e programas para redações (como a iniciativa do Google de trazer uma ferramenta de IA que escreve artigos), o mercado se torna cada vez menor para as organizações de notícias desenvolverem suas próprias ferramentas, para atender a suas próprias necessidades e interesses, gerando sua própria receita.

O acordo da OpenAI com organizações locais de notícias nos EUA e grandes grupos de mídia na Europa adiciona mais complexidade a essa equação, especialmente porque envolve dinheiro.

É um passo adiante em uma boa direção e sinaliza o valor do conteúdo jornalístico. E, com certeza, se empresas de tecnologia com bolsos fundos quiserem enviar dinheiro em nossa direção, devemos aceitar. Mas isso também mantém as organizações de notícias na órbita de empresas de tecnologia – e todos lembramos do destino de veículos que dependiam exclusivamente do Facebook, Google e outras plataformas como seu modelo de negócios, um grande lembrete de que precisamos de ferramentas e métodos inovadores que nós mesmos criarmos.

Jornalistas fazem reportagens sobre os aspectos técnicos mais novos da IA, sobre quantos parâmetros e janelas de contexto ela agora possui. Escrevem sobre regulamentação e como os parlamentos ao redor do mundo estão abordando essa questão. Publicam análises complexas que explicam e avaliam a opacidade dos direitos autorais e o treinamento de novos modelos de linguagem de grande escala. E ainda assim, o próprio uso de capacidades de IA por eles é, no mínimo, básico.

Há, compreensivelmente, medo entre profissionais da mídia de que inteligência artificial possa tomar seus empregos. Ferramentas como a que o Google está promovendo trazem mais ansiedade ainda. Isso significa que é ainda mais importante que as organizações de notícias se unam para criar algo próprio.

A Associated Press tem feito um trabalho muito interessante com IA no último ano, especialmente em torno da verificação de fatos. O New York Times também está avançando. Precisamos de mais iniciativas como essas, e não apenas das grandes organizações de notícias, mas de toda a indústria.

Os jornalistas precisam entender, no final, que a IA é um recurso, uma ferramenta e que precisa de humanos por trás dela. Ela pode nos ajudar com coisas menores, lidando com tarefas repetitivas que consomem tempo. Pode também corrigir completamente erros de digitação e outros erros bobos que nossos olhos cansados não conseguem identificar.

Mas, por melhores que essas ferramentas sejam agora, seu trabalho é empilhar palavra após palavra com base em parâmetros estatísticos — eles são incapazes de criar conhecimento, apenas de replicá-lo. É necessário o julgamento humano por trás para ser realmente eficaz. Duvido que essa situação mude em breve, especialmente em vista de regulamentações e avaliações de risco que estão por vir.

Este é, sem dúvida, um campo difícil de atravessar, mas um que as redações, sem dúvida, precisam se aventurar.

Outros Jogos Rápidos

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    Até o Reddit considera sair do Google

    Do Wall Street Journal:

    O Reddit, fórum de discussões online que impulsiona uma grande parte dos resultados de busca do Google, discute bloquear o acesso da gigante da tecnologia ao seu conteúdo para uso em inteligência artificial, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.

    O Reddit tem um acordo de US$60 milhões por ano com o Google para fornecer seus para resultados gerados por IA, e mesmo assim parece considerar um mau negócio, principalmente porque a audiência vindo do buscador parece ter caído vertiginosamente.

    As dores do Reddit são sentidas pelas empresas de jornalismo desde que o Google lançou o AI Overviews – aquelas respostas de IA no topo de resultados de busca.

    Segundo o WSJ, algumas empresas de conteúdo consideram até mesmo bloquear os robôs que indexam conteúdo para o Google, tamanha a raiva.

    Gráfico via WSJ

    No Núcleo, por exemplo, nosso tráfego de referência vindo do Google caiu na ordem de 50% em 12 meses.

    Via Wall Street Journal

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    O meme da prateleira vale pra IA

    Análise do The New York Times, nesta quarta-feira (22.jul.2025):

    Os principais índices de ações têm acumulado recorde atrás de recorde nos últimos anos, impulsionados pelo apetite aparentemente sem limites dos investidores por tudo o que esteja conectado à inteligência artificial. O valor total do mercado de ações dos EUA mais que dobrou na última década, ultrapassando os US$ 75 trilhões — cerca de duas vezes e meia a produção anual de toda a economia americana, o que representa, por si só, uma proporção recorde.

    A dependência do crescimento econômico em apenas um setor econômico da maior economia do mundo me lembra aquele meme da prateleira:

    Via The New York Times (link gratuito)

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    OnlyFans ignorou fiscalização brasileira

    Ao menos três empresas de conteúdo digital pornográfico fiscalizadas pela Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), incluindo a OnlyFans, ignoraram comunicações feitas pelo órgão regulador, que abriu um processo de fiscalização para saber se os sites estão aderindo às restrições de uso de crianças e adolescentes.

    Em publicação no Diário Oficial da União desta quinta-feira (22.jul), a ANPD intimou as empresas por trás dos sites adultos AnimesHentai.biz, OnlyFans.com e ThisVid.com a responderem em 10 dias, após não conseguir contato – elas não possuem endereço no Brasil nem responderam a solicitações por via eletrônica.

    As empresas terão 10 dias para responder à intimação da ANPD. Não há mais detalhes sobre o processo, cujos documentos são sigilosos até agora.

    A ANPD anunciou em jun.2026 ter aberto um processo de fiscalização sobre 18 sites, que representam 98% do tráfego de pornografia online no Brasil, verificando adesão ao ECA Digital, legislação que passou a valer este ano e que trouxe mais proteções a crianças e adolescentes.

  • Alexandre Orrico Alexandre Orrico
    Jack Dorsey lança mais um app

    Você piscou e o Jack Dorsey lançou mais uma coisa. O cofundador e ex-CEO do Twitter anunciou nesta terça, 22.jul, o Buzz, um app que parece ser uma mistura de Slack com GitHub e que tem suporte para agentes de inteligência artificial.

    O Buzz entra na lista do apps que Dorsey criou e/ou financiou nos últimos anos, como Square, Cash App, Afterpay, TIDAL, Bluesky, Bitkey e Proto, além, do próprio Twitter/X.

    Via Techcrunch

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    França segue passos da Austrália

    Em uma medida inédita na Europa, a França se tornou o primeiro país do continente a aprovar regulação para restringir o uso de redes sociais por crianças e adolescentes menores de 15 anos.

    A Austrália foi o primeiro a ter trais restrições (nesse caso, para menores de 16 anos), com lei que entrou em vigor em dez.2025.

    Aparentemente, mais países europeus devem seguir o exemplo, como Noruega, Espanha e Dinamarca. Em muitos deles há algumas regras já, mas nada que seja tão restritivo quanto na França.

    No Brasil, o mais perto disso que temos é o chamado ECA Digital, que passou a valor a partir de mar.2026 e que prevê mais segurança para menores, incluindo moderação de conteúdo mais eficiente, ferramentas de supervisão parental, contas de menores de 16 ligadas a responsáveis legais e proteções contra publicidade direcionada, entre outras coisas.

    Segundo a Rádio França Internacional:

    O órgão de vigilância da saúde pública da França afirmou no ano passado que plataformas como TikTok, Snapchat e Instagram eram prejudiciais aos adolescentes, particularmente às meninas, embora tenha ressaltado que elas não eram o único motivo para o declínio de sua saúde mental.

    Via Rádio França Internacional, Ministério da Justiça e g1

  • Alexandre Orrico Alexandre Orrico
    Saldão da divisão Xbox?

    A Microsoft pode estar preparando o terreno para vender a divisão do Xbox. Segundo texto do MeioBit:

    De um lado, a Sony tomou a antipática, porém inevitável, decisão de encerrar a produção de mídias físicas dos consoles PlayStation para games lançados a partir de janeiro de 2028; do outro lado do rio, a Microsoft esviscerou a divisão Xbox ao demitir 1.600 funcionários (e mais 1.600 vão rodar até o fim do ano fiscal), vender e desmembrar estúdios, cancelar games e exterminar projetos e equipes inteiras.

    Obsidian, id Software, Activision, Blizzard e Bethesda foram alguns dos estúdios atingidos. Parece que Satya Nadella, diretor executivo da Microsoft desde 2014 e nomeado pelo próprio por Bill Gates, não tem mais interesse por videogames e quer deslocar os investimentos para... Inteligência artificial, claro.  

    Há um entendimento de que a real intenção do CEO Satya Nadella que, fato conhecido, está absolutamente obcecado com IA, não é tornar o Xbox lucrativo, mas se livrar dele.

    Um dos candidatos mais fortes para a compra é o Fundo Público de Investimentos (PIF) do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, que controla a SNK e está em vias de concluir a compra da Electronic Arts.

    Via MeioBit.

  • Alexandre Orrico Alexandre Orrico
    Jornalismo independente contra bets

    Ainda sobre as bets: nesta terça-feira (21.jul), 15 veículos independentes se uniram em torno de um compromisso de rejeitar anúncios de casas de apostas e repudiar a influência nefasta dessas empresas.

    Veículos que fazem parte da aliança

    • Agência Lupa
    • Agência Pública
    • Alma Preta
    • Amado Mundo
    • Aos Fatos
    • Manual do Usuário
    • Matinal
    • Meio
    • Mobile Time
    • My News
    • Notícia Preta
    • NeoFeed
    • Plural
    • Portal Imprensa
    • Reset

    Os efeitos negativos desse tipo de negócio já são bem conhecidos: comprometem a renda das famílias e atingem de forma desproporcional as classes sociais mais pobres, além do risco de dependência. São danos sociais e econômicos que já assustam até mesmo os bancos.

    O Núcleo também não aceita publicidade de casas de aposta. Há nove meses nós publicamos um texto editorial sobre essa decisão.

    (Curiosidade: alguns desses veículos estão sob o guarda-chuva de empresas maiores que aceitam e/ou aceitaram publicidade de bets, como UOL e Terra)

    Por que o Núcleo não aceita publicidade de bets
    Esclarecimento sobre nossa política de anúncios para nossa comunidade

    Via Meio & Mensagem, Neofeed, Mobile Time, Agência Lupa

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    O caso bizarro do engenheiro da Meta preso em Nova York

    Reportagem do New York Post (é um tabloide, meio sensacionalista, então cuidado é necessário):

    Um engenheiro de Nova York, que dizia criar "experiências digitais para crianças" na gigante das redes sociais Meta, foi preso após admitir ter tentado enviar mensagens de teor sexual para uma jovem de 13 anos [...]

    Felker, que listava seu cargo em uma conta do LinkedIn (agora excluída) como Gerente de Engenharia que criava "experiências digitais para crianças" para a Meta, entrou em contato com a "conta isca" de 13 anos do grupo [Predator Poachers Long Island], em maio, e vinha trocando mensagens com eles regularmente desde então, informou o grupo.

    A Meta disse que o engenheiro foi suspenso e que vai colaborar com as investigações.

    Via New York Post

  • Sérgio Spagnuolo Sérgio Spagnuolo
    Bets temem mais regulação no Brasil

    O repórter Pedro S. Teixeira (cara bom), da Folha, fez uma boa reportagem sobre o aumento, no Brasil, de 300% no número de apostas durante a Copa do Mundo.

    Mas o que me chamou atenção mesmo na reportagem foi que as empresas de apostas continuam receosas com potenciais novas regulações sobre publicidade do setor, além das que já foram implementadas recentemente – as bets gastaram mais de R$1,4 bilhão em mídia só em 2025.

    Outro ponto de preocupação para o setor foi a reação do governo Lula, além de estados e municípios, contra a publicidade de jogos de azar durante a Copa.

    O presidente da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias), Plínio Lemos Jorge, disse que algum nível de restrição era esperado às vésperas das eleições, mas o setor teme que os anúncios recentes sejam "o início de uma onda de retaliações, que desconsidera os efeitos negativos das restrições".

    Agora em julho, foram publicadas novas regras para anúncios, que restringem, inclusive, o incentivo de bets como uma forma fácil de ganhar dinheiro e a obrigatoriedade de trazer rótulos no estilo Ministério da Fazenda adverte: apostar pode causar dependência.

    Antes tarde do que mais tarde.

    Via Folha de S.Paulo, Agência Brasil, Poder360 e Meio de Mensagem

  • Alexandre Orrico Alexandre Orrico
    Contra a youtubização do Spotify

    Há alguns anos, o Spotify decidiu que concorreria com o YouTube. Podcasts foram incentivados a ganhar versões em vídeo, enquanto músicas passaram a exibir trechos de clipes que, na maioria dos casos, eram reproduzidos automaticamente em segundo plano. Na última sexta-feira (17), reforçando essa estratégia, o BTS lançou o clipe de “NORMAL” com exclusividade de 48 horas no Spotify.

    Esse direcionamento tornou o aplicativo mais confuso e difícil de usar, além de aumentar brutalmente o consumo de bateria e memória dos dispositivos.

    Recentemente, porém, descobri que o Spotify passou a permitir que os usuários desativem por completo vídeos, canvas (os vídeos curtos em loop) e outros recursos visuais.

    Nos links abaixo, há instruções para quem, assim como eu, quer deixar o Spotify com menos cara de árvore de Natal.

    Via WIRED e Tecnoblog

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