Texto originalmente publicado por Rodrigo Ghedin no Manual do Usuário

Vamos direto ao assunto: viver sem Instagram, Facebook e Threads (risos) é fácil. Os únicos contratempos que me ocorrem são a privação dos rolos no marketplace do Facebook e o apagão de informações de restaurantes, cafés e clínicas que insistem em reduzir a presença no digital ao Instagram. Inconveniente, mas contornável.

No Brasil, o “chefão” de quem decide se livrar da Meta é o WhatsApp. E como não seria? Algumas pesquisas de hábitos no celular apontam que até 99,1% dos brasileiros maiores de 16 anos usam o app de mensagens. Por aqui, ele é onipresente; o meio de comunicação padrão de muita gente e empresas.

Para piorar, a Meta domina o pódio: nessa mesma pesquisa do InternetLab, segundo e terceiro lugares ficam com as DMs do Instagram e o [Facebook] Messenger. O Telegram, primeiro independente que aparece no ranking dos apps mais usados, o é por apenas 39% das pessoas entrevistadas. Telegram que, creio eu, virou um app de golpes que por acaso envia mensagens. Signal, meu app de mensagens preferido? Apenas 2% das pessoas usa.

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Estou influenciado pelo livro “Careless people”, da Sarah Wynn-Williams. A Meta é uma empresa podre até a espinha, a gente sabe, mas o magnífico relato dela dos bastidores conseguiu me surpreender. Fora isso, acho que, de modo inconsciente, estava um pouco saturado e/ou sobrecarregado do WhatsApp. E olha que nem usava muito! A ideia do experimento nasceu de uma combinação desses dois fatores.

Ciente das dificuldades, dei-me uma semana de férias do WhatsApp. Cortei o acesso na raiz, nos servidores DNS dos meus dispositivos. Uso o NextDNS, o que facilitou a minha vida: acrescentei todos os domínios da Meta que conheço à lista de bloqueios e ativei uma lista de terceiros específica para domínios da empresa. Desatualizada, mas imagino que cubra muita coisa que passaria pela minha filtragem manual.

Uma das surpresas desse experimento foi perceber que, mesmo subindo tantas barreiras contra a Meta, meus dispositivos ainda contactaram seus servidores. Poucas dezenas de consultas diárias, o que pode ser um erro na mensuração do NextDNS. O grosso das solicitações, que chegava a 5–6% do total, desapareceu.

Dei início ao bloqueio no sábado (3), por volta das 17h. Uma semana é pouco tempo para sentir os impactos, mas o período coincidiu com alguns eventos que ajudaram a enriquecer o experimento: estava visitando meus pais, tentando marcar de rever amigos numa cidade vizinha e tinha algumas consultas médicas pendentes de agendamento.

No dia seguinte (4), fiz esta anotação:

Quase 24 horas sem WhatsApp e até agora não senti falta. Ainda abro o app por força do hábito; ele fica carregando eternamente, não atualiza. Será que estou perdendo algo?

Antecipei-me no que foi possível antes de ligar os bloqueios no NextDNS para não “perder algo”:

  • Troquei a foto do meu perfil no WhatsApp e deixei uma mensagem de status avisando que estou acessível por SMS/RCS, Signal e e-mail.
  • Estabeleci contato por outros meios (SMS/RCS, neste caso) com os amigos que veria no próximo fim de semana e com quem mantinha contato (quase) diariamente no WhatsApp, como o Renan (do PC do Manual) e minha sócia na Célere.
  • Anotei na agenda alguns telefones de consultórios e clínicas que só tinha no WhatsApp.

A preparação deu resultado e consegui combinar dois eventos com amigos por mensagens de texto e agendar as consultas por telefone. A “regressão” tecnológica foi mais suave do que eu esperava.

abertura do iOS para o RCS, uma evolução (via internet!) do SMS, facilitou bastante. A maioria das pessoas usa Android; no SMS, a experiência é muito pior que a dos chamados aplicativos OTT (“over the top”), caso do WhatsApp. O RCS reequilibra o jogo.

Todos com quem falei desconheciam o RCS. Todos ficaram surpresos com um “SMS que se parece com o WhatsApp”. Não sem razão, porque a experiência é boa mesmo. Falarei mais disso em outro post.

A única coisa que me incomodou no RCS foi a maneira com que o aplicativo Mensagens, do iOS, exibe reações: em vez do emoji grudado na mensagem, a exemplo do WhatsApp e do próprio Mensagens quando a conversa se dá entre dois iPhones, recebo uma nova repetindo o que foi escrito, só que precedido pelo emoji usado para reagir. Fica tudo meio bagunçado e repetitivo. A má-vontade da Apple é palpável.

E as ligações? Quando foi que desistimos de falar com outras pessoas em tempo real? Foi tão mais fácil e rápido agendar consultas médicas pelo telefone. A qualidade é boa (temos ligações por Wi-Fi! VoLTE!) e uma conversa que se arrastaria por longos minutos, até horas no WhatsApp, foi resolvida em poucos minutos.

Só não consegui agendar uma atividade física porque o telefone do lugar estava programado para não receber ligações. Minha companheira fez o agendamento para mim (íamos juntos), via WhatsApp. Não dá para ganhar todas.

Nesta segunda (12), dia da tal atividade, comentei que não consegui ligar. A dona foi muito solícita, disse que provavelmente o celular estava sem crédito e, por isso, não aceitou a minha chamada. Prometeu resolver o problema e me passou seu telefone pessoal, caso ainda não consiga ligar para o do estúdio para um futuro agendamento.


Em um livrinho que poderia ter sido um post, Favor fechar os olhos, o filósofo coreano/alemão Byung-Chul Han divaga a respeito do encolhimento do presente. Por que o tempo parece passar tão rápido hoje? Seria a aceleração?

O assunto é dos favoritos deste Manual do Usuário, e a leitura veio bem a calhar. Para Han,

O que é perturbador na atual experiência do tempo não é a aceleração enquanto tal, mas a falta de conclusão, isto é, a falta de cadência e do ritmo das coisas.

No começo deste texto, comentei ter passado a semana apreensivo diante da possibilidade de perder alguma mensagem importante. Essa sensação foi eclipsada pela paz que ganhei, o que alguém poderia confundir com tédio, mas que me foi muito benéfica.

Atribuo a calmaria ao sumiço dos grupos de WhatsApp da minha vida. Mesmo ingressando neles com parcimônia, são vários e todos úteis, legais ou de gente com quem me importo. Por melhores que sejam, sobrecarregam o cérebro — ou, nos termos de Han, são vários assuntos carentes de conclusão.

O grupo dos assinantes Manual, por exemplo, sempre tem debates interessantes, dicas preciosas e — sou suspeito a falar, mas — gente muito legal. E ainda assim, foi de certo modo um alívio não ter que acompanhar as conversas. Mesmo tendo abandonado há tempos a pretensão de ler todas as mensagens que publicam lá, o fato das mensagens estarem acessíveis, esperando por mim, causava inquietude. Isso vale para todos os outros grupos.

Isso significa que encerrarei o grupo de assinantes no WhatsApp? Não. Muita gente ali dentro comentou comigo que o grupo é um dos principais (às vezes, o principal) motivo da assinatura. E também tem o detalhe de eu ser meio… diferente, com uma bateria social de baixíssima capacidade. Talvez pessoas normais não se afetem tanto quando eu percebi que me afeto com a avalanche de mensagens recebidas pelo WhatsApp. Para mim, o texto escrito (e os áudios também), somado a diálogos assíncronos e a falta de conclusão, geram uma bomba de ansiedade e sobrecarga cognitiva.

Encerrei o experimento no final da tarde de sexta (9). Abri o WhatsApp e deparei-me apenas com mensagens não lidas em grupos. Não abri nenhuma.

Em vez disso, decidi estender o experimento por tempo indeterminado. Baixei e converti meu número ao WhatsApp Business para poder programar uma mensagem de ausência, disparada toda vez que alguém envia uma privada para mim:

Olá! Não estou usando o WhatsApp. Para falar comigo, há várias alternativas:Envie uma mensagem de texto (SMS/RCS).Envie uma mensagem no Signal.Envie um e-mail para rodrigo@ghed.inLigue. (Atendo ligações, sem problemas).

Obrigado pela compreensão!

O WA Business exige conexão à internet para disparar a mensagem, o que me parece um contrassenso. Talvez seja algo relacionado à criptografia de ponta a ponta, ou então mais uma tática suja da Meta para forçar os estabelecimentos a se manterem conectados o tempo todo, mesmo quando ausentes.

Atualização (17/1, às 8h15): É com grande pesar que anunciou meu humilde retorno ao WhatsApp. Saí de alguns grupos e arquivei o resto. A minha vida fica muito mais fácil com o acesso a algumas pessoas e (infelizmente) grupos de lá. Seguirei priorizando outros canais de comunicação. Falo mais desse retorno no podcast[1] desta semana. Um dia derrubaremos o WhatsApp.