Latinas criam plataforma que rastreia batidas do ICE em tempo real nos EUA
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Latinas criam plataforma que rastreia batidas do ICE em tempo real nos EUA
// People Over Papers tem sistema de moderação e é mantido por cerca de 60 voluntários ao redor do país.
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Quando Donald Trump reassumiu o poder nos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2025, as batidas do ICE (serviço de imigração e alfândega) começaram já no dia seguinte. Não era exatamente uma surpresa. Há tempos o republicano prometia deportar o máximo de imigrantes possível.
Celeste, uma californiana de 30 anos, sabia disso. Ela não tinha se envolvido com política no primeiro mandato de Trump. Era recém-formada, ganhava pouco, passava os dias pensando em como iria pagar os boletos. Mas, agora, com a vida estável, ela tinha decidido que se engajaria no movimento de oposição. Filha de imigrantes mexicanos e com familiares que não tinham autorização para viver no país, ela decidiu focar seus esforços no tema da imigração.
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Essa reportagem é a sexta e última parte de uma série do Núcleo sobre resistência digital nos EUA.
Celeste estudou as leis imigratórias e já vinha postando vídeos no TikTok explicando os possíveis impactos do que Trump prometia fazer. Então, naquele dia seguinte à posse, quando viu que uma influenciadora chamada “Jaxx” estava coletando relatos das primeiras batidas ao redor do país, Celeste não perdeu tempo. Clicou no ícone da mensagem e mandou um: “Oi Jaxx, posso ajudar criando uma planilha pública do Google de batidas do ICE que foram verificadas?” A resposta veio na hora: “Sim, claro! Seria super útil.”

Eram sete da noite. Celeste respondeu dizendo que mandaria algo no dia seguinte. Mas não conseguiu esperar. Abriu um novo documento e começou a listar os locais em que pessoas haviam reportado encontros com o ICE. Três horas depois, mandou a primeira versão da planilha para Jaxx.
Elas se seguiram no Instagram e, no dia seguinte, as duas anunciaram uma base de dados e de um mapa com os locais das batidas. Só naquele dia 21 de janeiro, elas já tinham listado 140 pontos espalhados pelo país. Os documentos eram colaborativos, ou seja, qualquer um podia reportar um incidente. Chamaram de “La Migra”, gíria em espanhol para a polícia de imigração norte-americana.
A ideia inicial de Celeste era fazer um registro da política imigratória na era Trump. Mas as pessoas começaram a usar os documentos como forma de evitar encontros com o ICE. Logo depois do anúncio, o mapa começou a falhar com o volume das contribuições. E foi bem nessa hora, enquanto tentava resolver os problemas na plataforma, que Celeste recebeu uma mensagem de uma pessoa se oferecendo para ajudar.
Era Kat, uma educadora latina e mãe de quatro crianças que estava angustiada com as notícias do novo governo em relação à imigração. Ela queria se envolver no projeto. Celeste topou a ajuda e compartilhou os problemas que estava enfrentando com a ferramenta do Google. Kat então sugeriu que elas migrassem para o Padlet, um mapa colaborativo que parecia mais estável. Deu certo. No dia seguinte, 22 de janeiro, o novo mapa já registrava 923 aparições do ICE.
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Nas semanas e meses seguintes, Celeste e Kat (a influenciadora Jaxx acabou deixando o projeto) só publicavam os incidentes que conseguiam verificar de alguma forma, seja por fotos, vídeos ou reportagens. Elas rebatizaram o mapa de “People Over Papers”, algo como “Pessoas valem mais que documentos”.
“Eu realmente achei que aquilo só levaria algumas semanas, que eu ia juntar informações, provavelmente ganhar uns seguidores no TikTok e partir pra outra”. Mas o projeto viralizou. Até outubro do ano passado, a plataforma acumulava 65 milhões de visualizações, com 13,4 milhões de usuários únicos e era operada por uma equipe de 60 voluntários ao redor dos Estados Unidos que checam as informações em tempo real.
O mapa virou um serviço comunitário poderoso. “Recebemos feedback de pessoas que checam todas as manhãs, que não saem de casa antes de checar, que ficam mais calmas quando estão no trabalho”, explica Celeste. Em novembro, por exemplo, um usuário anônimo enviou uma mensagem perguntando como estava determinada rua em sua cidade, porque queria ir à missa e estava com medo.
É muito trabalho. Com um custo alto para saúde mental. Celeste, que até hoje não usa publicamente seu sobrenome e não compartilha detalhes da vida pessoal nas redes, já sofreu ameaças e ataques. Muitos chegam anonimamente pelo próprio mapa. “Eu já vi suásticas, já vi Hitler, já vi corpos mortos, tipo fotos de corpos desmembrados. As pessoas mandam coisas horríveis.”

Na plataforma em que a equipe usa para se comunicar, elas criaram um canal só pra saúde mental. “As pessoas jogam lá o que estão sentindo ou pensando e dizem quando estão tendo um dia ruim”. É uma comunidade de voluntários que se ajudam todos os dias sem nunca ter se visto. “Acho que posso dizer que criei amizades pra vida inteira”, diz Celeste.
Em julho do ano passado, as duas abriram uma fundação, a Pueblo Project Foundation – ou Fundação Projeto do Povo. A ideia é conseguir financiar o trabalho desses 60 voluntários e aperfeiçoar o mapa. Em outubro, após pressão pública de influenciadores da extrema direita, a plataforma Padlet expulsou o People Over Papers, e elas criaram um site próprio. O mapa agora está disponível em 11 línguas, incluindo o português.
People Over Papers - Report ICE Activity
Report and track ICE activity in your community. A community-driven platform to document immigration enforcement.


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