Em janeiro deste ano, a revista Nature publicou uma reportagem com infográficos que revelavam o declínio da pesquisa científica nos EUA, um ano após Donald Trump retomar o poder no país. Segundo o texto, foram mais de 7.800 cancelamentos de bolsas, US$32 bilhões cortados do orçamento e 25 mil cientistas e assistentes que deixaram seus cargos.

Esses dados só existem porque um grupo de cientistas tomou para si o trabalho de catalogar a devastação na ciência promovida pelo governo Trump. E fez tudo isso enquanto algumas de suas próprias bolsas eram cortadas.

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Essa reportagem é a quinta parte de uma série do Núcleo sobre resistência digital nos EUA.

Tudo começou em março de 2025. “Eu estava prestando muita atenção nas notícias. E eu estava muito bravo”, contou para o Núcleo o pesquisador de doenças infecciosas Noam Ross. “Eu já tinha ido bater panela na frente de uma revendedora da Tesla do meu bairro e tinha ido para protestos. Tudo isso é importante. Mas eu ainda estava procurando o melhor jeito de me incluir nessa situação.”  

Ross trabalha em uma organização que faz ferramentas de computação para auxiliar pesquisas científicas. E, no começo de março, depois do anúncio de que o governo ia cortar verbas dos Institutos Nacionais de Saúde (um conjunto de 27 centros que pesquisam e desenvolvem tratamentos para doenças e que era responsável por mais de 80% do investimento mundial em pesquisa biomédica), ele começou a ver pesquisadores postando sobre o fim do financiamento de seus estudos.

Ele queria entender quantas e quais bolsas estavam sendo cortadas. E, olhando nos sites oficiais, ele pareceu encontrar algo que identificava os cortes. Só que, para validar isso, ele precisaria confirmar a informação de que elas haviam, mesmo, sido canceladas. 

Foi quando ele se deparou com uma planilha pública feita por Scott Delaney, então pesquisador de Harvard. Nesse documento, Delaney reunia informações sobre algumas dezenas de projetos cancelados. E pedia para pesquisadores adicionarem detalhes das suas próprias pesquisas terminadas. Quando Ross viu aquilo, escreveu na hora para Delaney se oferecendo para juntar esforços e montar uma base de dados. 

Deu certo. Os dois logo começaram a trabalhar juntos. E a primeira coisa que fizeram foi criar um formulário para os pesquisadores mandarem os detalhes de seus projetos que perderam financiamento. Logo depois disso, começaram a chegar informações sobre verbas de outros institutos que haviam sido canceladas, como da Fundação Nacional de Ciências, que apoia as ciências exatas no país, e da Agência de Proteção Ambiental. Eles decidiram coletar esses dados também – e todos os outros que chegassem.

No fim de abril de 2025, eles lançaram um site. Primeiro chamaram de “Grant Watch”, ou “Vigilância de bolsas”. Depois mudaram para “Grant Witness”, algo como “Testemunha de bolsas”. Lá, eles listam pesquisas cortadas (e as que foram reinstaladas) de cinco instituições federais, dão detalhes do que cada estudo faria e mapeiam os estados mais afetados. É a maior base de dados do tipo nos Estados Unidos.

Grant Witness

Nesse meio tempo, Delaney recebeu a notícia de que a sua própria pesquisa em epidemiologia também havia perdido financiamento. Ele deixou o departamento de saúde pública de Harvard em setembro de 2025. Seu estudo investigava as formas em que a mudança climática poderia exacerbar doenças como Alzheimer e Parkinson. 

Mas, além de epidemiologista, Delaney é também advogado. “Então ele já estava pensando no sentido litigioso, do que seria necessário” para entrar com uma ação contra esses cortes, explica Ross. E isso aconteceu (e segue acontecendo) em diversas instâncias e estados. Algumas bolsas foram reinstaladas como resultado de vitórias jurídicas. Muitos dos processos ainda correm na Justiça e grande parte deles usa informações da base de dados criada pelos dois.

Ross conta que segue trabalhando por volta de dez horas por semana no projeto. Ele diz que é um trabalho difícil, emocionalmente falando. “Porque você tem uma visão de perto de ações tremendamente destrutivas, né”.

Entre os projetos cancelados estão, por exemplo, programas de educação científica em escolas. “Você está essencialmente cortando a oferta de jovens cientistas”. Além disso, ele explica que o planejamento de pesquisas futuras também está sendo severamente afetado. “Pesquisas geralmente levam cinco, dez anos. E o sistema é projetado pra dar essa estabilidade. Então é um corte de todas as pernas do que fez a inovação americana tão bem sucedida por tanto tempo.”

Em um post no LinkedIn de junho de 2015 sobre alguns dos estudos cancelados, Ross escreveu: “Cada uma dessas ações é um ultraje, mas esta semana vou destacar a crueldade particular de terem cortado vinte estudos do Instituto Nacional de Surdez e Outros Distúrbios da Comunicação. Isso inclui vários ensaios clínicos pediátricos e, acreditem ou não, um estudo para apoiar o desenvolvimento de implantes cocleares [auditivos] em órfãos no Lar para Meninos Padre Falanagan, em Nebraska”.

Apesar de ter que lidar com o peso de saber de tudo isso em detalhes o tempo todo, Ross sabe que é um trabalho importante. “Tem sido prejudicial para minha vida social, com certeza. Tem sido prejudicial para a limpeza do meu apartamento, sim. Mas é isso. É o que precisa ser feito.”

Reportagem Giovana Romando Sanchez
Arte Aleksandra Ramos
Edição Alexandre Orrico