Colaboradores da Fiocruz, fundação vinculada ao Ministério da Saúde e um dos principais centros de pesquisa de saúde da América Latina, começaram na semana passada a receber emails da instituição avisando de uma "expressiva redução" na capacidade de armazenamento de dados fornecida pela Microsoft.

Antes a Fiocruz possuía acesso a 30 petabytes de armazenamento para os serviços OneDrive, o SharePoint e o Exchange Online (e-mail corporativo). Mas, por conta de mudanças nas políticas da Microsoft relacionadas a contratos de educação anunciadas em 2024, o montante foi reduzido recentemente para 730 terabytes, um corte de 97,6%. O conteúdo do email foi também publicado no site da Fiocruz.

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1 petabyte é equivalente a 1.000 terabytes.
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A Fiocruz desenvolve vacinas, monitora doenças como dengue, zika e chikungunya, faz pesquisa em saúde indígena, tem projetos sobre clima e saúde em fronteiras amazônicas e possui bases de dados gigantes de saúde pública, como registros de vacinação, entre várias outras coisas.

O corte começou a ter efeitos internos na Fiocruz. Segundo uma fonte que utiliza grandes volumes de armazenamento de documentos e prefere não se identificar por não estar autorizada a falar pela instituição, colaboradores da fundação estão tendo que "repensar estratégias de armazenamento futuro e reorganizar arquivos que estavam na nuvem".

Contatadas na tarde de 18.mar.2026, a Fiocruz respondeu quase 24h depois por email que "infelizmente não conseguimos fonte em tempo hábil para atender a demanda", ao passo que a Microsoft informou logo depois que "neste momento, não vamos conseguir contribuir com a solicitação no prazo."

O Núcleo pode atualizar esta reportagem com posicionamento das organizações, caso seja enviado posteriormente.

Perguntas enviadas à Fiocruz

Data: 18.mar.2026 às 13:30

Gostaria de falar com algum representante ou que, ao menos, vocês pudessem me responder algumas questões: 

  1. A nova política da Microsoft já começou a valer pra Fiocruz, ou seja, os cortes de armazenamento já foram feitos? 
  2. Qual o tamanho e os termos do contrato atual da Fiocruz com a Microsoft?
  3. Como essa redução de armazenamento em OneDrive, SharePoint e correio eletrônico institucional afeta atuais operações ou projetos da Fiocruz que dependem desses recursos?

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RESPOSTA
Data: 19.mar.2026 às 12h01

Olá Sergio, Agradecemos o contato. Infelizmente não conseguimos fonte em tempo hábil para atender a demanda.Esperamos ajudar numa próxima.

Perguntas enviadas à Microsoft (18.mar.2026)

Data: 18.mar.2026 às 13:30

Gostaria de solicitar uma entrevista com um representante da Microsoft ou, alternativamente, obter respostas para as seguintes questões:

  1. Quantas universidades, centros de pesquisa e outras instituições no Brasil já foram impactadas pela nova política da Microsoft?
  2. Existe algum relatório ou estudo interno da Microsoft que analise os efeitos da redução de armazenamento em OneDrive, SharePoint e correio eletrônico institucional sobre as operações de instituições educacionais e de pesquisa no Brasil?
  3. Quais foram os motivos que levaram à implementação dessa mudança e qual a data exata de sua implementação? (Alguns relatos indicam que a mudança iniciou em 2024, porém, o processo de implementação parece ainda estar em andamento.)
  4. Essa mudança tem alguma relação com a necessidade da Microsoft de expandir sua capacidade para inteligência artificial?

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RESPOSTA
Data: 19.mar.2026 às 13h44

Obrigada novamente pelo contato. Neste momento, não vamos conseguir contribuir com a solicitação no prazo. Seguimos à disposição.

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O Núcleo se compromete a manter o anonimato de suas fontes.

CONTRATOS MILIONÁRIOS

A Fiocruz firmou um contrato de R$8,6 milhões em 2024 com a Brasoftware Informática para licenciamento de produtos e serviços da Microsoft por 12 meses, incluindo a compra de 13.000 licenças de educação "A3", ao valor de R$4,7 milhões/ano, que incluem os serviços afetados.

No ano seguinte, 2025, o contrato subiu para R$11,6 milhões, segundo o painel de transparência da Fiocruz, uma alta de 35%.

O Núcleo não conseguiu acesso ao Estudo Técnico Preliminar no site da coordenação de TI da Fiocruz, mas um documento de 2024 deixa clara a dependência da instituição nos serviços da Big Tech:

Com o término do contrato vigente em outubro/2024, urge a necessidade de uma nova contratação dos produtos Microsoft com a máxima brevidade. A ausência de uma renovação contratual resultará na inoperância dos softwares, comprometendo a sustentabilidade operacional da estrutura administrativa, obstruindo a continuidade dos processos de trabalho e deteriorando as condições laborais na Fiocruz.

Em valores nominais, ou seja, sem reajuste pela inflação, a Fiocruz gastou mais de R$28 milhões com compras da Microsoft de 2012 a 2020, segundo resposta a um pedido de Lei de Acesso à Informação no site da CGU.

Já vimos esse filme

Mudanças em políticas de contratos de edução de grandes empresas de tecnologia, mais notadamente Google e Microsoft, afetam instituições de ensino e pesquisa há anos.

Em fev.2025, por exemplo, a Universidade Federal do Ceará emitiu um alerta semelhante, dizendo que arquivos não poderia ser mais editados. Notas semelhantes foram emitidas pela UFRPE, pela UFPR, e pelas secretarias de educação de SP e GO.

Em 2022, o Procon de Juiz de Fora emitiu uma medida cautelar contra o Google por iniciar cobrança a serviços Google Workspace for Education primeiramente oferecidos de forma gratuita à Universidade Federal de Juiz de Fora. A Big Tech foi multada em R$1 milhão em 2024.

Em 2023, o Núcleo publicou uma reportagem mostrando como as Big Techs se aproximaram de instituições de ensino: entre 145 universidades brasileiras analisadas pelo Observatório de Educação Vigiada na época, 80% delas utilizam servidores ou do Google ou da Microsoft.

Como as Big Techs cravaram os dentes na educação brasileira
Casos de instalação forçada de aplicativos em celulares de alunos e professores com contas do Google mostra efeitos da proximidade entre Big Tech e educação
Reportagem Sérgio Spagnuolo
Colaborou Sofia Costa
Edição Alexandre Orrico