Reportagens
Dupla rastreia avanço do guia ultrarradical de direita 'Projeto 2025' no governo Trump
// Núcleo conversou com arqueóloga e voluntário anônimo que documentam a implementação do plano com sugestões de ex-conselheiros do primeiro governo Trump e lobistas da direita ultraconservadora nos EUA
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Essa reportagem é a segunda parte de uma série do Núcleo sobre resistência digital nos EUA.
Donald Trump tinha acabado de tomar posse como presidente dos EUA em janeiro de 2025 quando Adrienne Cobb sentou na frente do computador da sua casa, em Washington, e começou a preencher as primeiras colunas de uma planilha.
Cobb é uma arqueóloga de formação que trabalha com operações de transporte marítimo. Pouco antes da vitória de Trump, ela se pegou pensando muito no Projeto 2025, um texto de 900 páginas produzido pela organização conservadora Heritage Foundation, em 2023.
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Projeto 2025 é um guia, um plano com sugestões de políticas públicas feito por ex-conselheiros do primeiro governo Trump e lobistas da direita ultrarradical nos Estados Unidos.
Entre as recomendações do projeto estão a criminalização da pornografia, o desmantelamento do departamento de educação e o fim dos recursos federais destinados à pesquisa e ao investimento em energia renovável. Segundo a União Americana por Liberdades Civis (ACLU na sigla em inglês), uma das organizações de direitos civis mais importantes dos Estados Unidos, o documento objetiva “reorganizar por completo o governo federal, agência por agência, para servir à agenda conservadora.”
No fim da campanha presidencial de 2024, Trump chegou a declarar que não concordava com muito do que o Projeto 2025 pregava. Mas Adrienne Cobb não estava convencida.
“Me surpreendia o fato de o plano não ter recebido mais atenção. [...] É uma ameaça séria à democracia, à liberdade e às bases do nosso sistema constitucional. [...] Mesmo com Trump se distanciando publicamente dele, a sobreposição entre os objetivos do documento e a agenda conservadora mais ampla deixava claro que aquilo era mais do que um exercício teórico.”
Aí ela teve uma ideia: se Trump ganhasse, seria importante acompanhar quanto de suas ações se alinhariam ao Projeto 2025. Ela tinha experiência com esse tipo de trabalho. Em 2019, ela rastreou toda investigação do procurador especial Robert Mueller sobre o suposto conluio de Trump com a Rússia para interferir nas eleições de 2016 – o que não ficou provado.
A ideia, na época, era destrinchar o que estava acontecendo para quem não tinha tempo de acompanhar o noticiário frenético. Ela queria fazer o mesmo com o Projeto 2025. “A maioria dos norte-americanos não tem tempo de ler uma agenda política de 900 páginas, mas eles merecem saber qual é o plano e o que está sendo implementado no seu nome.”
Então, quando no dia da eleição de 2024 as projeções apontaram Trump como próximo presidente, Cobb já sabia o que faria no dia seguinte. O primeiro passo foi ler o documento do Projeto 2025 e destrinchá-lo em categorias.
“A parte mais complexa foi definir critérios claros para o que deveria ser incluído. Eu escolhi só focar em chamados explícitos, ou seja, quando os autores recomendavam claramente que algo deveria ser feito.” Por exemplo, em vez de listar objetivos como minar a prática do aborto seguro, ela detalhou propostas, como proibir a venda do misoprostol, medicamento abortivo. “Isso ajudou a minimizar qualquer interpretação pessoal ou viés.”
Ela criou uma planilha e listou os 317 objetivos do projeto, divididos por assunto e departamento responsável. Depois da posse, Cobb voltou ao documento. Conforme os dias foram passando, ela foi buscando as notícias por assunto e atualizando as colunas – sempre incluindo documentos oficiais ou reportagens como fontes.

No dia 5 de fevereiro, Cobb postou o link da planilha no Reddit. Ela já era ativa por lá. Mantinha desde 2017 uma comunidade sobre política progressista chamada “Keep_Track” – que também virou newsletter e perfil do BlueSky. No post anunciando a planilha, ela listava quais ações do Projeto 2025 já tinham sido implementadas e dizia que tentaria manter o documento atualizado durante todo governo Trump.
No mesmo dia que anunciou a planilha, Cobb recebeu uma mensagem de um usuário anônimo, identificado como “Mollynaquafina”. Dizia: “Oi, ótimo trabalho no rastreador do Projeto 2025! Você toparia colaborar para transformar isso num site? Eu também sou nerd de planilhas, mas acho que seria legal publicar os dados de uma forma mais atraente visualmente para o público em geral”. Ela respondeu na hora com um “sim, topo”.
“Molly”, que pediu para não usarmos seu nome, contou ao Núcleo que ficou bem curioso quando viu a postagem de Cobb. “Eu tinha visto falas do presidente se distanciando do Projeto 2025, então quis saber que políticas eles começaram a implementar. Eu lembro de pensar: uau, essa ferramenta é exatamente o que eu preciso. E também: uau, quem montou isso ficou um tempão trabalhando na planilha.”
Quanto mais interagia com a planilha, mais Molly sentia que devia ter um jeito melhor de visualizar tudo aquilo. Ele trabalha com programação, então já começou a imaginar aquela informação toda em um site. Na mesma noite em que recebeu o sinal verde, Molly rascunhou um rastreador atualizado a partir da planilha e compartilhou com Cobb. Nos dias seguintes, eles ajustaram detalhes, definiram o design e consertaram falhas. Cinco dias depois daquela troca de mensagem, em 10 de fevereiro, o site do rastreador estava no ar.
Project 2025 Tracker
A comprehensive, community-driven initiative to track the implementation of Project 2025’s policy proposals
“Eu quero que as pessoas entendam que nada no Projeto 2025 é inevitável. Essas políticas só se concretizam se a gente deixar. Existe poder na organização comunitária, na ação local e na resistência coletiva. [...] Cada ato de resistência, por menor que pareça, contribui para um movimento mais amplo”, disse Cobb.
Até a publicação desta reportagem, o site registrava mais de 100 mil visitantes por dia e indicava que o governo Trump já tinha implementado 51% de todo texto ultraconservador. Cobb segue atualizando a planilha e Molly continua cuidando do site. Eles ainda só conversam pelo Reddit.
Reportagem Giovana Romano Sanchez
Artes Aleksandra Dias
Edição Alexandre Orrico
⚠️ Texto atualizado às 12h01 em 13.fev.2026 para corrigir a primeira aspa da entrevistada: “Me surpreendia o fato de o plano não ter recebido mais atenção."
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