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Essa reportagem é a primeira parte de uma série do Núcleo sobre resistência digital nos EUA.

Quando começaram as batidas de imigração nos Estados Unidos de Donald Trump, em fevereiro de 2025, ninguém sabia exatamente quais eram os planos do governo para quem era detido. Com o tempo, alguns casos de imigrantes enviados para a Costa Rica e Panamá começaram a aparecer na imprensa.

Mas foi só a partir de 15.mar.25 que o ambicioso projeto de deportação em massa para prisões fora dos EUA foi revelado. E foi o aposentado Tom Cartwright que primeiro levantou a lebre – ou melhor, apontou o dedo em direção ao céu

Resistência digital nos EUA
Como cidadãos norte-americanos estão rastreando, mapeando e documentando os impactos devastadores das políticas de Donald Trump.

Naquela manhã de 15.mar, um domingo, Cartwright estava fazendo uma trilha nas Ilhas Canárias. Quando voltou pro hotel, abriu o computador e fez o que fazia todos os dias há cinco anos: entrou em sites que mostram rotas de voos em tempo real ao redor do mundo, como FlightAware e Flightradar24.

Cartwright, 71 anos, é um ex-executivo do banco de investimentos J.P. Morgan. Desde que se aposentou, em 2015, ele começou a se envolver com causas de imigração e a rastrear voos de deportação nos EUA.    

Intervenção sobre fotografia de Tom Cartwright. Crédito: Maddie McGarvey

Quando, naquela manhã, Cartwright fez seu ritual digital pelos sites de aviação, ele viu algo estranho nos voos federais. Dois aviões tinham saído de Harlingen, no Texas, com destino a El Salvador. “Era um dia atípico para aqueles voos e era esquisito ter dois indo para El Salvador de Harlingen”.

Ele vinha seguindo as notícias e os planos de deportação da polícia de imigração (ou ICE, na sigla em inglês). Sabia que Harlingen ficava só duas horas do centro de detenção onde estavam vários venezuelanos pegos pelo ICE. Então, ele lançou a dúvida no seu perfil do X: “DOIS VOOS MUITO INCOMUNS DO ICE aparecendo agora de Harlingen para El Salvador”, acrescentando que, no último mês e meio, só tinha visto um voo desse tipo. “Deportação de venezuelanos??”, perguntou. 

O post no X foi removido porque Cartwright migrou pro BlueSky, mas esta matéria da Atlantic e esta da Reuters transcreveram o tweet.

Era isso mesmo. E o que se seguiu foi um enfrentamento entre juízes, que exigiram o retorno dos aviões, e o governo Trump, que manteve os planos de enviar os imigrantes para uma prisão de segurança máxima de El Salvador. Em 18 de julho de 2025, os 252 venezuelanos que estavam naqueles dois voos que Cartwright localizou foram repatriados.

Eles foram trocados por 10 prisioneiros norte-americanos em uma negociação entre os dois países. Em entrevistas após pousarem na Venezuela, os homens contam que foram torturados. Disseram que apanharam, tiveram água suja jogada nos ouvidos, tinham que ajoelhar e lamber as costas dos guardas.

Depois desses voos, o governo norte-americano só intensificou a deportação em massa, enviando pessoas para a Base Naval de Guantánamo, terminando status legais de proteção e transferindo pessoas à força para diferentes países.

Cartwright já tinha visto os horrores de políticas anti-imigrantes em outras partes do mundo. Ele começou a se interessar pelo tema em 2015, pouco depois de se aposentar.  “Eu tive uma carreira maravilhosa, amava o que fazia, tive muita sorte. E aí acabei tendo um tempo livre e senti que era um bom momento para retribuir”.

Pesquisando, ele descobriu uma organização que levava voluntários dos EUA para trabalhar por algumas semanas em campos de refugiados na Grécia. Cartwright fez cerca de 15 dessas viagens, todas custeadas do próprio bolso.

Segundo ele, a experiência mudou seu jeito de ver o mundo. “Eu acho que a única maneira de você realmente defender uma causa é ter vivenciado aquilo. Não sei se eu teria feito tudo o que fiz — tipo ir até Washington e me engajar dessa forma — se não tivesse vivido um pouco do que aquelas pessoas estavam passando ou pelo menos ter visto de perto.”

Em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, Cartwright foi voluntário na fronteira com o México, além de fazer lobby pela causa em Washington. No começo de 2020, ele estava no Texas com um grupo humanitário para protestar contra a política do governo de manter no México os imigrantes que cruzavam a fronteira pedindo asilo.

“Íamos de manhã, víamos as pessoas sendo colocadas nos aviões, algemadas, um processo totalmente desumanizador”. Tentando prever quando sairia o próximo voo, e assim conseguir organizar os protestos, Cartwright começou a mexer nos aplicativos de aviação em tempo real.

Aí veio 2020 e a pandemia do COVID-19 – e todo mundo voltou pra casa. No tempo em que ficou em isolamento, Cartwright começou a fazer análises de dados aéreos de deportações e notou um grande interesse por parte de organizações não-governamentais, jornalistas e congressistas. “Dava pra sentir que não havia muita transparência [governamental] em relação ao tema. Então eu continuei. Eu não tinha exatamente um plano, nem sabia por quanto tempo ia fazer aquilo.” 

40 mil voos, 800 mil pessoas

Cartwright rastreou voos de deportação diariamente e publicou relatórios mensais por cinco anos seguidos. Foram mais de 40 mil voos do ICE rastreados, acompanhando o destino de quase 800 mil pessoas deportadas e outros milhares transferidos dentro dos EUA.

Seus documentos de cerca de 50 páginas eram recheados de gráficos ultradetalhados, analisando o total de deportações por dia e comparando os países de destino e os aeroportos de origem. 

Além de acompanhar os voos em tempo real, Cartwright também cruzava informações de pesquisa para conseguir confirmar as deportações. “Tem muita coisa que é puro julgamento, mesmo. Esses aviões voam por vários motivos que não têm a ver com o ICE. Então, cada voo precisa ser avaliado para ver se é ou não um voo do ICE”. 

Era um trabalho que, no começo, levava de quatro a cinco horas por dia, mas que desde o segundo mandato de Trump estava tomando oito, às vezes dez horas de trabalho diário.  Mas embora o volume do trabalho tenha aumentado, Cartwright diz que esses últimos meses foram os mais recompensadores. “Tem tanta gente interessada, da imprensa, de organizações [não-governamentais], querendo entender os fatos”. 

Os relatórios de Cartwright são fonte para reportagens do New York Times, CNN e para organizações de direitos humanos ao redor do país. “Dá pra sentir que você tá fazendo diferença.”

Durante todo esses anos, Cartwright fez tudo isso voluntariamente, porque achava (e ainda acha) importante. Mas ele cansou. Há tempos ele procurava uma organização que pudesse não só herdar o trabalho, mas otimizá-lo e ampliá-lo. Em 2025, ele encontrou.

Em agosto, a organização Human Rights First assumiu o rastreio dos voos e a publicação dos relatórios, investindo recursos e automatizando partes do processo. O treinamento da equipe durou cerca de cinco meses e, em setembro, eles publicaram o primeiro relatório independente.

ICE Flight Tracking Project Now Officially Housed at Human Rights First - Human Rights First
Washington, D.C. — Human Rights First is proud to officially house an innovative initiative that monitors and analyzes U.S. immigration enforcement flights. The project was developed and led by retired financial executive and immigration advocate Tom Cartwright for nearly six years. Human Rights First will continue Tom’s critical work under a new name: the ICE […]

Os dados escancaram a política de deportação em massa do atual presidente dos EUA: em 2025 houve um aumento de 84% nos voos de fiscalização migratória (que incluem transferência de imigrantes e deportações) em comparação ao ano passado

Cartwright segue fazendo trabalho voluntário na fronteira com o México e assessorando a instituição que herdou seu projeto de rastreio. E, agora, ele também quer aproveitar um pouco mais sua aposentadoria. 

ICE Flight Monitor - Human Rights First
Righting Human Wrongs
Reportagem Giovana Romano Sanchez
Artes Aleksandra Ramos
Edição Alexandre Orrico