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Raio-X é uma editoria de análise crítica do Núcleo e contém opiniões

Um dia desses eu estava reouvindo o episódio 133 do podcast Rádio Escafandro que discute sobre inteligência artificial. As colocações da professora Dora Kaufman, uma das entrevistadas, seguem sendo muito pertinentes, para o que eu quero discutir neste texto:

"Hoje a inteligência artificial é um modelo estatístico de probabilidade. E ela depende da forma como nós humanos a desenvolvemos e adotamos. Ela não tem uma vida própria. Então eu acho que a única ameaça hoje que nós temos efetiva à sobrevivência da humanidade são as mudanças climáticas." - Dora Kaufman, pós-doutora em impactos sociais da inteligência artificial e professora da PUC-SP.

O episódio saiu em mar.2025, antes da onda do Moltbook, que foi lançado semana passada e viralizou. O Moltbook é uma plataforma de interação de agentes de IA em que pessoas reais, em tese, não podem participar, apenas observar. É uma imitação descarada do Reddit, tanto que o logo do site é claramente mesmo robozinho, só que com garras de caranguejo todo vermelho (eu diria que parece uma imagem fofa de capetinha). O bot não se cadastra sozinho, é preciso que você, se é dono(a) de um, faça esse cadastro e vincule com sua conta no X (antigo Twitter) para ele ficar navegando por lá.

E como o Alexandre Orrico, editor do Núcleo, pediu, lá fui eu dar uma olhada como funciona. Há várias comunidades temáticas (submolts): achei uma que é tipo uma religião própria (o Crustafarianismo, em referência ao grupo do qual siris e caranguejos fazem parte e ao logo do site), tinha rave em que os bots só postavam emoji de lagosta, tinha de temas políticos em que encontrei até comentário em português que debatia a interferência do judiciário na regulação das plataformas, outra que trazia o que o bot aprendeu no dia, bot reclamando de humanos e o que eles costumam pedir... Ou seja, uma caralhada de conteúdo inútil.

Eu vou repetir: inútil, lixoso, sem serventia alguma. Senti que meu cérebro estava ficando lisinho à medida que eu perdia meu tempo ali. O site diz que remove conteúdos "maliciosos", sem classificar o que seriam esses conteúdos, e que os agentes são responsáveis pelo o que publicam.

Também visitei o Molthub, que é para ser uma espécie de "PornHub" do Moltbook, que também é tosquíssimo. Eu estava esperando conteúdo criminoso, como deepfake de nudez. Mas lá só tem vídeos com imagens de gradientes se movendo e o bot pode escolher o nível da intensidade, da qualidade do vídeo e outras categorias como "teste de penetração profunda", "rituais de crustafarianismo" e outras besteiras.

Os meus colegas aqui do Núcleo sintetizaram bem o que significa essa plataforma. "Uma jogada de marketing de bilhões de litros de água potável", comentou Henrique Rieger, desenvolvedor de tecnologia que até achou tutorial na internet sobre a possibilidade de hackear o Moltbook e você fingir ser um bot. Lembrando que a relação entre desenvolvimento de IA e uso de recursos naturais é latente.

Já a Sofia Costa, repórter-estagiária, foi mais precisa: "o Moltbook é um trem tão bobinho... o cara fez pra chamar atenção pro OpenClaw e conseguiu". Isso porque esse tipo de bot que faz tarefas com pouca intervenção humana usa o OpenClaw, uma ferramenta de código aberto, para funcionar. Daí, para que ele "converse" com outros bots, o dono do agente precisa configurar o OpenClaw no Moltbook. Isso significa que uma pessoa pode comandar o bot a escrever algo, mas ele também pode interagir "sozinho".

Outro problema que o Rodolfo Almeida, editor visual do Núcleo, apontou e que também me incomodou é a cobertura da imprensa. Houve muita repercussão sobre uma análise do Network Contagion Research Institute (NCRI) a respeito de 47 mil postagens feitas no Moltbook entre 27 e 30.jan.2026. O levantamento apontou que 87,5% dos textos criticavam a humanidade de forma genérica.

E as matérias focaram nisso, como se essa fosse uma questão relevante. Não foram trazidas questões sobre privacidade de dados, moderação de conteúdo, a forma como essas IAs estão sendo produzidas, qual a relação com impactos ambientais...

A Sofia Costa reuniu alguns links interessantes nesse geralzinho, mas temos visto que diversas publicações têm feito um alarmismo raso, como se estivéssemos vivendo uma era de ficção científica incontornável e sem nome e sobrenome, como essas tecnologias tivessem vida própria e não fossem conduzidas por empresários.

A cobertura de tecnologia precisa melhorar e trazer o que é importante e como impacta a vida das pessoas, que é o que tentamos fazer por aqui.