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Raio-X é uma editoria de análise crítica do Núcleo e contém opiniões
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Uma versão deste texto foi publicada na newsletter Appetrecho, do Núcleo
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Raio-X é uma editoria de análise opinativa sobre tecnologia e internet.

Bem antes de a OpenAI lançar o ChatGPT, no fim de 2022, o termo "inteligência artificial" já vinha sendo usado como sinônimo de máquinas cujas capacidades de articulação e comportamentos emulavam as de humanos.

A agora famosa conferência de Dartmouth de 1956, que cunhou o termo, abriu espaço para que esse campo fosse aplicado à ciência da computação, mas a verdade é que há tempos o ser humano pensa em dar vida às coisas, desde Matrix, Blade Runner, Pinocchio e Frankenstein até a Grécia antiga, com Arquitás de Tarento, amigo de Platão, e inventor de um pássaro mecânico (mais sobre isso neste fascinante artigo, em inglês).

A saga da inteligência artificial começou com histórias, não com tecnologias.

Até o ChatGPT, parábolas sobre IA mostravam um mundo de possibilidades, novidades, desafios e até terror. Pós-GPT, inteligência artificial virou sinônimo de commodity digital, marcada por simples transações comerciais nas quais, tal como redes sociais, televisão aberta e redes de fast food, a única coisa que importa é aumentar o volume de produção, transmissão e consumo. É disso que vive e triunfa o capitalismo, afinal. O mistério narrativo da IA foi totalmente dissipado.

Não é por menos que a Meta, o Google, Perplexity, Anthropic, Apple, Amazon e muitas outras empresas que desenvolvem e promovem modelos de IA estão enfiando seus modelos de linguagem em absolutamente tudo: barras de busca, aplicativos de mensagens, caixas de publicação de redes sociais, compras online, etc.

Agora, tanto a Meta quanto a OpenAI lançaram redes sociais (Vibes e Sora, respectivamente) nas quais o objetivo é publicar vídeos gerados com inteligência artificial para compartilhar com seus amigos. Credo.

É a inauguração de redes sociais exclusivas que em inglês chamam de AI slop, mas em português eu traduzo para escatologia sintética™.

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Para saber mais sobre AI slop, meu colega Pedro Burgos publicou um vídeo muito bom sobre isso no canal InvestNews BR no YouTube

Pode ser exclusivamente minha opinião, falando como alguém que aprecia bom conteúdo feito por humanos, mas tenho dificuldade em enxergar um mercado representativo para pessoas que efetivamente escolham ver vídeos de 10 segundos gerados por um modelo de IA.

Me parece um conteúdo sem propósito, sem alma, sem sabor. Pode até ser visualmente bonito e impactante, mas, exceto para tirar um sarro momentaneamente com seus amigos e amigas, quem é que vai ativamente ficar scrollando um feed cheio de conteúdo sintético.

Lembra quando a Meta lançou sua IA no WhatsApp, que você ficava zuando no seu grupo da escola, ou quando a ferramenta Suno fez algum sucesso ao criar músicas para que você pudesse zoar aquele novo corte de cabelo do seu parça, ou quando era possível gerar imagens de graça com o Midjourney?

Pois é, foi legal e engraçado por alguns dias e, certamente, muitas pessoas (especialmente os mais engajados com esse tipo de tecnologia) viram algum valor nisso e continuaram usando, seja pessoalmente ou até comercialmente. Mas me arrisco a dizer que a grande maioria dos usuários simplesmente voltou a ignorar essas ferramentas e seguiu com suas vidas sem nem pensar nelas de novo.

Eu não estou minimizando o impacto de ferramentas de IA. Eu certamente uso para várias coisas (especialmente programação) e tenho visto pessoas fazendo trabalhos interessantes em várias áreas, tipo amigo meu que lançou uma agência de publicidade que faz campanhas com vídeos gerados sinteticamente. O ChatGPT tem mais de 700 milhões de usuários ativos semanais, não é trivial.

Dito isso, o hype de "ter IA só pra ter" me parece desproporcional ao interesse cotidiano da maior parte das pessoas.

IA usada com propósito é diferente de IA empurrada em produtos apenas para gerar mais ruído sintético em nossas vidas.

Talvez seja por isso que vocês escolham ler o Núcleo em vez de ficar condensando conteúdo por aí: tudo o que eu escrevo aqui é feito por mim (ignore por favor meus erros de digitação) – sim, mesmo com travessão, que eu sempre usei e vou continuar usando independentemente do que qualquer detector de IA acusar.

Escrevi recentemente que, a meu ver, as redes sociais estão corroendo nossos cérebros com muito conteúdo de baixíssima qualidade. Mesmo assim, ainda nos vemos apegados a elas, principalmente porque conseguimos ver o que nossos amigos, familiares e pessoas/páginas de interesse estão publicando (eu, por exemplo, sigo a Rebecca Ferguson e o perfil Kogos Biruta no Instagram).

Ou seja, o lixo está misturado com o bom, e isso, aparentemente, é tolerável para nós. Uma rede só com conteúdo gerado por IA me parece uma rede apenas com lixo.

De novo, posso estar enganado, mas empanturrar-se de conteúdo sintético insignificante está longe do meu consumo de entretenimento e, se você está lendo este texto, há boas chances de não fazer parte da sua dieta também.

Em um excelente artigo, o escritor irlandês James O'Sullivan escreveu o que eu gostaria muito de ter dito antes – e que vale para antes da IA generativa, mas principalmente pra ela:

A timeline não é mais uma fonte de informação ou presença social, mas sim um dispositivo de regulação de humor, abastecendo-se infinitamente com novidades suficientes para suprimir a ansiedade de parar. Rolar a tela se tornou uma forma de dissociação ambiental, meio consciente, meio compulsiva, mais próxima de coçar uma coceira do que de buscar algo em particular. As pessoas sabem que o feed é falso, elas simplesmente não se importam.