Fazer jornalismo sem se vender pra banqueiro
Linha Fina
Fazer jornalismo sem se vender pra banqueiro
// Enquanto transparência não for prioridade para redações, os Vorcaros continuarão pagando os Escosteguys
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Linha Fina é uma coluna de opinião sobre mídia e jornalismo
Em 2019, fui convencido – em parte por vontade de levar pra frente meus próprios projetos, em parte por vários amigos sérios que também foram iludidos – a fazer parte de uma iniciativa babilônica de notícias que já começou no dia um com 35 jornalistas de peso. O nome era Vortex Media, que faliu após dois meses no ar.
Eu aceitei o convite de Diego Escosteguy para ser editor de dados, com um salário acima da média. Havia também a promessa de que os investidores (anônimos) eram ponta-firme, e que haveria dinheiro garantido para sustentar as operações por três anos.
Agora sei que eu ainda era verde, e que os potes de ouro que reluzem na nossa frente são, muitas vezes, apenas ilusões.
Eu ainda não sei de onde veio a grana do Vortex, pra ser sincero eu nem quero mais saber. Mas me bateu com pouca surpresa a reportagem do jornal o Globo que descreve como Escosteguy alegadamente recebeu R$2 milhões diretamente de Daniel Vorcaro para ajudar o banqueiro, o qual é acusado de fraude e orquestrar agressão contra um jornalista, entre muitas outras picaretagens.
Segundo reportagem de Malu Gaspar:
Em uma das conversas ele inclusive informa a conta onde devem ser depositados os valores. Em uma planilha aparece referência ao seu nome e ordem de DBV para o pagamento de 2 milhões, a quem o jornalista se referia como “amigo”.
"Só pra eu não esquecer, amigo: conferi agora e ainda não fizeram o segundo pagamento", escreveu o jornalista a Vorcaro em mensagem datada de 19 de setembro de 2025, dois meses antes da Justiça Federal de Brasília determinar a prisão do banqueiro.
Veja na íntegra a nota de Diego Escosteguy ao Globo
O portal O Bastidor e o jornalista Diego Escosteguy, fundador e diretor-geral do veículo, esclarecem que, ao contrário do que indica a publicação da coluna acerca da representação da PF, a relação com o empresário citado nos autos sempre foi estritamente profissional, no âmbito da atividade jornalística, caracterizando-se como relação de fonte — prática legítima, comum e indispensável ao exercício da imprensa.
A matéria mencionada no inquérito da Polícia Federal (como todas as reportagens publicadas sobre o caso) foram produzidas com base em informações obtidas junto a fontes, documentos e apuração própria, seguindo critérios editoriais. Não houve direcionamento de conteúdo por parte de terceiros, tampouco qualquer comprometimento da autonomia jornalística.
São os mesmos padrões editoriais e o mesmo profissionalismo que guiam a carreira de Diego Escosteguy há 24 anos. É lamentável que a prática cotidiana de jornalismo crítico e alicerçado em evidências seja alvo de ilações e informações descontextualizadas e adjetivadas por agentes da lei.
É igualmente irresponsável e leviano associar relações comerciais comuns a qualquer veículo de comunicação, em datas pretéritas, e não contemporâneas, a suposto “esquentamento” de notícia meses depois.
Uma simples consulta ao site do Bastidor pode verificar a publicação sistemática de notícias críticas e profissionais sobre a crise do Master e seus diferentes aspectos.
Os valores mencionados referem-se a contratos de patrocínio e publicidade, prática regular no mercado de comunicação. Assim como qualquer veículo de imprensa, O Bastidor mantém parcerias comerciais que não interferem na linha editorial nem no conteúdo das reportagens.
O Bastidor reafirma o compromisso com o jornalismo profissional e transparente, sempre pautando a atuação pela ética, responsabilidade e rigor na apuração dos fatos, tendo sido o primeiro veículo a investigar e publicar reportagens, com evidências, sobre as suspeitas de fraudes no Banco Master (ainda em 2023)
Ainda não tivemos acesso aos autos. Assim que isso ocorrer, tomaremos todas as medidas cabíveis para desfazer narrativas falsas e restabelecer a verdade dos fatos.
Brasília, 4 de março de 2026
Diego é um cara que veio do Grupo Globo e, após não conquistar o poder que queria lá dentro, lançou o Vórtex para tentar ser dono de mídia. Se fosse só um negócio que tivesse dado errado, eu entendo, mas as promessas foram firmes e constantemente reiteradas. Ou seja, a ilusão foi deliberada, sabe-se lá para que fim.
Lembro do afeto que a equipe tinha entre si e o compromisso com o trabalho, para, sem nenhum aviso, apenas sermos notificados de que o dinheiro acabou e estávamos todos no olho da rua, naquele fatídico dia 6 de dezembro de 2019.
Aprendi uma lição com esse caso que vou carregar comigo para o resto da vida: a transparência é uma das coisas mais fundamentais pra uma organização de jornalismo. Não apenas a transparência pra fora, mas também para dentro da organização.
O dinheiro vem de algum lugar, claro. Pode criticar o quanto quiser, o Núcleo já teve grana de Big Tech, fundações, organizações internacionais, mas a gente diz por que, como, e sempre que possível, quanto. Isso é fundamental para que você nos compreenda e confie no que fazemos. A transparência é necessária quando não há confiança, e a confiança só vem quando há transparência.
Sim, muitas vezes há questões fiscais, de privacidade de assinantes e financeiramente sensíveis que não podem ser abertamente compartilhadas, até por lei, mas é importante sempre mostrar a origem da nossa grana de uma forma ou de outra.
No Núcleo, nossa equipe sabe de onde vem o dinheiro (você também pode saber, veja nosso Relatório de Atividades 2025, tá detalhado lá). Nossa liderança sempre deixa claro como estão as condições de saúde da empresa, quando aperta, quando precisamos cortar custos ou quando podemos investir mais.
Transparência faz parte do DNA do Núcleo, e foi uma lição aprendida por mim e por meus sócios, infelizmente, a partir do que há de pior do ser humano.
Texto atualizado às 19h43 de 4.mar.2026 com nota de Diego Escosteguy enviada para o Jornal O Glob.
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