O vereador de Goiânia Fabrício Silva Rosa (PT) entrou com uma ação judicial, na sexta-feira (20.mar.2026), para pedir a investigação do delegado Humberto Teófilo de Menezes Neto, pré-candidato ao Senado, por explorar a estrutura da Polícia Civil de Goiás para engajar nas redes sociais, bem como a remoção de conteúdos que violem a portaria da corporação sobre uso de plataformas digitais.

O advogado Valério Luiz Filho, que representa Rosa na ação popular, utilizou denúncia do Núcleo sobre a conduta do policial em postagens que expunham crianças e adolescentes em visitas às celas da Central de Flagrantes de Aparecida de Goiânia, publicada no mês passado. A norma veda a divulgação de conteúdo referente à Polícia Civil sem autorização e que tenha finalidade de promoção pessoal e/ou eleitoreira. A corporação chegou a não autorizar uma das visitas de crianças após contato da reportagem.

Delegado ‘antissistema’ usa estrutura da Polícia Civil para engajar nas redes sociais
Pré-candidato ao Senado por Goiás, Humberto Teófilo organiza até visita de crianças à celas; especialista aponta instrumentalização do cargo e do patrimônio público

Valério Luiz afirma que, além da portaria, o delegado violou os princípios da legalidade, da moralidade e da impessoalidade da administração pública previstos na Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) por não preservar a imagem das crianças, a Lei das Eleições por propaganda eleitoral antecipada e os artigos 13, 28, 30 e 38 da Lei de Abuso de Autoridade (constrangimento a detento; divulgação de gravação que não tenha relação com prova para afetar a imagem do investigado; atribuir culpa ao investigado por meio de rede social antes da conclusão da investigação; abrir procedimento sem justa causa).

O parlamentar já havia requerido providências da Corregedoria da Polícia Civil em 2024 e em 2025, por conta de vídeos de operações e de prisões de pessoas, entre elas advogados, cujos casos foram arquivados por falta de provas e por narrativas que eram diferentes das publicadas por Teófilo. Segundo Rosa, no documento, não houve retorno da corporação e ele considera que o Estado foi "omisso" ao não puní-lo até o momento.

Na peça endereçada ao governo estadual, ele solicita ainda que o delegado não publique mais conteúdo sobre armamentos, equipamentos, operações e símbolos da Polícia Civil de Goiás e que, se houver descumprimento, que o perfil do Instagram seja desativado mediante ordem judicial. Requereu, ainda, que o Ministério Público estadual e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) sejam notificados sobre o processo.

Os pedidos ainda devem ser avaliados pelo Tribunal de Justiça de Goiás. A tramitação pode ser acompanhada pelo número 5243475-44.2026.8.09.0051.

Em 15.mar.2026, o delegado Humberto Teófilo publicou no Instagram uma portaria que o transferia, dois dias antes, da Central de Flagrantes para serviços administrativos no gabinete do delegado-geral. O texto informa o número de um procedimento administrativo e argumenta que a medida se deu "por razões de estrita necessidade do serviço" e "logística administrativa na distribuição dos recursos disponíveis".

Desde então, Teófilo tem atribuído a transferência como retaliação diante do seu trabalho contra o crime organizado sem dar maiores detalhes e participado de podcasts onde discute sua pré-candidatura ao Senado enquanto está na ativa.

Ao Núcleo, a assessoria da Polícia Civil de Goiás não quis informar o teor do procedimento administrativo citado e disse que "as movimentações funcionais de seus policiais ocorrem conforme critérios de conveniência e oportunidade da Direção-Geral, observando as necessidades do serviço público e a adequada gestão de pessoal da Instituição".

A pasta também não respondeu se houve a abertura de algum procedimento sobre as denúncias da reportagem ainda em fev.2026.

O Núcleo também procurou o delegado, mas não houve retorno.

Texto Jeniffer Mendonça
Edição Alexandre Orrico