Saibam que há coisas que a gente faz pelo jornalismo que passam algumas barreiras: eu, por exemplo, dei a imagem do meu rosto e fiz uma foto do meu RG para testar a verificação de idade do Roblox, para a conta que fiz para a reportagem da semana passada. (Leia abaixo)

Testamos a verificação de idade do Roblox
Sistema é ineficiente para proteger crianças; bloqueio padrão de chat para usuários de até 9 anos não impede acesso a jogos inadequados

Eu tenho 29 anos e nunca tinha jogado Roblox na minha vida (e espero sinceramente não precisar jogar de novo). Foram horas para saber como fazer o meu avatar andar pelos cenários...

Mas não foi difícil criar várias contas fictícias de criança de 8, 9, 10 anos sem precisar passar pela verificação para ter acesso a conteúdo problemático.

Até fuzil ostentei em jogos (chamados de servidores) que simulam bailes, interagi com outros usuários que eu não sabia a idade e vi jogos que têm roletas que parecem cassinos, além de outros em que os avatares são extremamente sexualizados.

Meu avatar de 9 anos no bailão do Vidigal no Roblox

Vocês devem ter notado que viralizaram protestos no Roblox na última semana por causa do bloqueio do chat por padrão para crianças com até 9 anos de idade.

A questão é que a cobertura da imprensa desde o início me gerou muito incômodo (e ainda está gerando).

Checagem é uma das principais funções do jornalismo e, de cara, as matérias que saíram traziam a certeza de que era uma revolta capitaneada por crianças. Mas como provar que de fato eram crianças? A pauta do protesto, as placas com erros ortográficos e os avatares no jogo pareceram suficientes. Isso é subestimar e desconhecer o funcionamento do ambiente digital, além de uma incompreensão de como crianças e adolescentes usam essas plataformas. Por isso quis entrar nele para compreender o que estava se passando.

Também procurei a Isabel Harari, que fez uma série premiada sobre trabalho infantil no Roblox para a Repórter Brasil, e ela recomendou buscar comunidades no Discord.

Apesar de lá também não ter como provar se os usuários são crianças, adolescentes ou adultos, já que todo mundo usa foto de personagem e nome de usuário aleatório, todos eles estão lá – e interagem sem restrições. Obviamente, os protestos foram assunto e eu passei a observar as conversas a partir da criação de uma conta fake (para não saberem que tinha uma jornalista ali) e buscas por palavras-chave.

As impressões foram bem interessantes, tanto para saber sobre a discussão quanto sobre as táticas de burlar o sistema.

Uma das principais questões é que teve gente que não viu o bloqueio do chat como um problema porque se comunica com outras pessoas pelo Discord, o que mostra que a medida é insuficiente para proteger o público infantil.

Também conversei com especialistas sobre direitos infantojuvenis e o que posso tirar disso tudo é que será um desafio a implementação do ECA Digital bem como a fiscalização das plataformas.

Nessa seara, é importante que nós, jornalistas, não usemos nossas ferramentas para ofuscar o que interessa e desinformar. Foi engraçado ver placas com frases absurdas (provavelmente adolescentes e jovens tirando sarro), mas nosso papel é outro.